Educação Ambiental e Complexidade

 

 

Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira ¹

Simoni Timm Hermes ²

Luciana Aparecida Ramos Martins ²

Alessandra Fernandes Wernz ²

Andréia Barreto do Nascimento Brum ²

Danilieta Pereira Brum ²

 

 


       

      1 – Doutor em Educação, Professor Adjunto 4 do Departamento de Ciências Sociais e do Curso de Mestrado em Ciências Sociais, UFSM, Professor do Curso de Especialização Ambiental CCR, UFSM (Presencial e EAD)

                                                                  2- Especialistas em Educação Ambiental – CCR – EAD – UFSM

                                                                                                              - Outubro de 2009 -

                                                             

 


 

“La complejidad se sitúa en un punto de partida para una acción más rica, menos mutilante. Yo creio profundamente que cuanto menos mutilante sea un pensamiento, menos mutilará a los humanos. Hay que recordar las ruinas que las visiones simplificantes han producido, no solamente en el mundo intelectual, sino también en la vida. Suficientes sufrimientos aquejaron a millones de seres como resultado de los efectos del pensamiento parcial y unidimensional”  (Edgar Morin)

 

 

            As transformações contemporâneas, suas problemáticas e exigências ao homem pós-moderno, colocam em questionamento conceitos e concepções até então considerados “legítimos” ou verdadeiros. No entendimento do paradigma da complexidade, deve-se levar em consideração a grande insegurança em que vive o homem atualmente diante da velocidade e do grande volume de informações, da mudança de valores e das instabilidades provocadas pelas conquistas da tecnociência.

 

            A incerteza, única coisa sólida que não se desmancha nos ares pós-modernos, de forma não-produtiva, está relacionada com o medo, a insegurança e os riscos de grande conseqüência. Porém, de forma produtiva, relaciona-se com uma postura dinâmica, aberta e dialógica, contribuindo para uma visão crítica das questões/problemáticas ambientais e de suas possíveis soluções.

 

            Destacamos que, sob esta ótica produtiva, trata-se de perceber que a incerteza produz movimentos na sociedade contemporânea, instiga a abertura e a dialogicidade entre indivíduos e entre processos culturais de construção de significados (móveis, permanentemente desconstruídos e reinventados). Portanto, deve ser entendida como um conceito central na configuração do paradigma da complexidade, o que nos leva a afirmar que a incerteza é gerada e gera complexidade, a qual está presente em todas as formas de existência, nos processos socioculturais e nas produções dos conhecimentos científicos.

 

            Assim, com base no paradigma da complexidade, a ciência é chamada a se “re-fazer”. Se considerarmos, sob os princípios da complexidade, que “o ponto de partida da ciência humana moderna é a distinção de que a natureza está, de alguma maneira, dada, lá fora, e que a cultura é o feito distintivo do homo sapiens, que cresce da natureza, se separa dele e, então, dela se distingue” (Paul Rabinow), veremos que esta idéia é totalmente desconstruída.

 

            A consciência de que tudo é/está interligado, constituindo-se em um universo de relações, traz consigo um outro entendimento sobre o homem, a sociedade e o mundo, e questiona profundamente os resultados da excessiva influência do método cartesiano e do reducionismo científico.

 

            Além da simplificação e do reducionismo, de seus conhecimentos especializados, disciplinares e disciplinados, a ciência é questionada em suas garantias/certezas, não apenas pelas questões de abertura e diálogo que se impõem no contexto atual, mas também porque os “riscos de grande conseqüência”, como analisa Anthony Giddens, tornaram-se notórios e de complexa resolução.

 

           Isto por sua vez, movimenta a ciência na busca de compreensão e soluções frente às inúmeras e contraditórias possibilidades. Porém, a riqueza e produtividade da compreensão sobre as problemáticas contemporâneas e a busca de soluções, dependem do questionamento constante e da abertura ao interdisciplinar.

 

           Considerando estes pressupostos, somos colocados frente a uma idéia central de Boaventura Santos  que indica que “todo conhecimento é local e total” , ou seja, a produção de conhecimentos disciplinares e disciplinados na ciência moderna (a imagem do cientista “ignorante” em relação aos problemas globais e especialista nos conhecimentos de sua disciplina), passa a ser superada pela ciência pós-moderna. Esta compreende que as questões locais pertencem a uma rede complexa de relações entre homens e culturas.

 

            Desta forma, questões locais e questões globais  precisam ser concebidas em constante situação comunicativa, e representam implicações mútuas na construção de representações, de trajetórias científico-sociais e de ações.

 

            Neste contexto, a busca pelo desenvolvimento sustentável implica a superação dos limites resultantes do paradigma clássico, faz emergir as contradições das certezas modernas, e nos coloca frente aos desafios do paradigma da complexidade, o qual aponta para uma compreensão reflexiva da forma de se produzir e das relações de poder hegemonicamente instituídas.

 

            É cada vez maior o número de pessoas, governos e instituições preocupadas com a questão ambiental, porém nem todos tomam a mesma sob a ótica da complexidade. Sob esta ótica, uma compreensão reflexiva coloca em pauta a mudança do atual modelo de “crescimento” para um modelo de “desenvolvimento”, ou seja, para um modelo efetivamente “sustentável”. Os governos ainda tem uma postura resistente a este novo modelo, pois temem a tão propalada “retração” na economia. Porém, decisões complexas exigem identificação das problemáticas tanto em termos quantitativos como qualitativos.

 

             Isto significa dizer que a questão ambiental traz consigo a exigência de uma profunda reflexão sobre os rumos da sociedade. Os atuais dilemas socioambientais, colocam em xeque as verdades absolutas, e, sob o paradigma da complexidade, evidenciam as relações sociais e humanas, e a relação natureza-cultura. Afirmamos assim, que os atores sociais precisam articular ações tanto no campo político como no campo cultural em torno do princípio da sustentabilidade, bem como desenvolver práticas efetivamente democráticas e solidárias nas relações entre os indivíduos.

 

             A partir destas idéias, destacamos aqui a necessidade de uma educação ambiental efetivamente crítica, e que para nós, é aquela que articula-se entre diversos atores e setores, perpassa interdisciplinarmente a educação formal e não-formal, trabalhando significações e re-siginificações e contemplando as inter-relações do meio natural com o social. Configura um processo educativo que busca alternativas para uma nova forma de desenvolvimento que priorize a sustentabilidade socioambiental, reconhecendo que isto somente é possível através do amadurecimento e prática de conceitos como ética, cidadania, co-responsabilidade, identidade cultural e diversidade.

 

            Sob estes aspectos, a educação ambiental crítica repensa a realidade de modo complexo, definindo-a como uma nova racionalidade e um espaço capaz de articular natureza, técnica e cultura, possibilitando-nos outras formas de ver, narrar, sentir e com isso produzir novas relações entre o homem e o meio ambiente.

 

             Portanto, repensar a forma como homem historicamente utiliza os espaços e seus recursos, constitui-se um desafio para os educadores ambientais, que inicialmente precisam trabalhar com uma mudança na forma como o homem se percebe no mundo. Para isto torna-se necessário questionar o paradigma da certeza e da simplicidade que ainda aprisiona as práticas educacionais, privilegiando-se metodologias e práticas interdisciplinares que fomentem a concepção de complexidade e de mudanças na relação homem-ambiente.

 

             Destacamos, e propomos, para uma educação ambiental crítica,   a  concepção de Boaventura Santos de “pensarmos no conhecimento como autoconhecimento”. Aqueles conhecimentos que produzimos nas relações de poder e saber, não estão livres das nossas crenças, nossas aspirações e projetos de vida. Portanto, os conhecimentos da educação ambiental devem estar interrelacionados com as formas como enunciamos a nossa vida, o que nos coloca como sujeitos produzidos e da mesma maneira produtores de conhecimentos científicosociais críticos, capazes de alterar nossa maneira de estar e permanecer no mundo.

"EDUCAÇÃO AMBIENTAL E COMPLEXIDADE"

                                             Educação Ambiental e Complexidade

 

 

Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira ¹

Simoni Timm Hermes ²

Luciana Aparecida Ramos Martins ²

Alessandra Fernandes Wernz ²

Andréia Barreto do Nascimento Brum ²

Danilieta Pereira Brum ²

 

 


       

      1 – Doutor em Educação, Professor Adjunto 4 do Departamento de Ciências Sociais e do Curso de Mestrado em Ciências Sociais, UFSM, Professor do Curso de Especialização Ambiental CCR, UFSM (Presencial e EAD)

                                                                  2- Especialistas em Educação Ambiental – CCR – EAD – UFSM

                                                                                                              - Outubro de 2009 -

                                                             

 


 

“La complejidad se sitúa en un punto de partida para una acción más rica, menos mutilante. Yo creio profundamente que cuanto menos mutilante sea un pensamiento, menos mutilará a los humanos. Hay que recordar las ruinas que las visiones simplificantes han producido, no solamente en el mundo intelectual, sino también en la vida. Suficientes sufrimientos aquejaron a millones de seres como resultado de los efectos del pensamiento parcial y unidimensional”  (Edgar Morin)

 

 

            As transformações contemporâneas, suas problemáticas e exigências ao homem pós-moderno, colocam em questionamento conceitos e concepções até então considerados “legítimos” ou verdadeiros. No entendimento do paradigma da complexidade, deve-se levar em consideração a grande insegurança em que vive o homem atualmente diante da velocidade e do grande volume de informações, da mudança de valores e das instabilidades provocadas pelas conquistas da tecnociência.

 

            A incerteza, única coisa sólida que não se desmancha nos ares pós-modernos, de forma não-produtiva, está relacionada com o medo, a insegurança e os riscos de grande conseqüência. Porém, de forma produtiva, relaciona-se com uma postura dinâmica, aberta e dialógica, contribuindo para uma visão crítica das questões/problemáticas ambientais e de suas possíveis soluções.

 

            Destacamos que, sob esta ótica produtiva, trata-se de perceber que a incerteza produz movimentos na sociedade contemporânea, instiga a abertura e a dialogicidade entre indivíduos e entre processos culturais de construção de significados (móveis, permanentemente desconstruídos e reinventados). Portanto, deve ser entendida como um conceito central na configuração do paradigma da complexidade, o que nos leva a afirmar que a incerteza é gerada e gera complexidade, a qual está presente em todas as formas de existência, nos processos socioculturais e nas produções dos conhecimentos científicos.

 

            Assim, com base no paradigma da complexidade, a ciência é chamada a se “re-fazer”. Se considerarmos, sob os princípios da complexidade, que “o ponto de partida da ciência humana moderna é a distinção de que a natureza está, de alguma maneira, dada, lá fora, e que a cultura é o feito distintivo do homo sapiens, que cresce da natureza, se separa dele e, então, dela se distingue” (Paul Rabinow), veremos que esta idéia é totalmente desconstruída.

 

            A consciência de que tudo é/está interligado, constituindo-se em um universo de relações, traz consigo um outro entendimento sobre o homem, a sociedade e o mundo, e questiona profundamente os resultados da excessiva influência do método cartesiano e do reducionismo científico.

 

            Além da simplificação e do reducionismo, de seus conhecimentos especializados, disciplinares e disciplinados, a ciência é questionada em suas garantias/certezas, não apenas pelas questões de abertura e diálogo que se impõem no contexto atual, mas também porque os “riscos de grande conseqüência”, como analisa Anthony Giddens, tornaram-se notórios e de complexa resolução.

 

           Isto por sua vez, movimenta a ciência na busca de compreensão e soluções frente às inúmeras e contraditórias possibilidades. Porém, a riqueza e produtividade da compreensão sobre as problemáticas contemporâneas e a busca de soluções, dependem do questionamento constante e da abertura ao interdisciplinar.

 

           Considerando estes pressupostos, somos colocados frente a uma idéia central de Boaventura Santos  que indica que “todo conhecimento é local e total” , ou seja, a produção de conhecimentos disciplinares e disciplinados na ciência moderna (a imagem do cientista “ignorante” em relação aos problemas globais e especialista nos conhecimentos de sua disciplina), passa a ser superada pela ciência pós-moderna. Esta compreende que as questões locais pertencem a uma rede complexa de relações entre homens e culturas.

 

            Desta forma, questões locais e questões globais  precisam ser concebidas em constante situação comunicativa, e representam implicações mútuas na construção de representações, de trajetórias científico-sociais e de ações.

 

            Neste contexto, a busca pelo desenvolvimento sustentável implica a superação dos limites resultantes do paradigma clássico, faz emergir as contradições das certezas modernas, e nos coloca frente aos desafios do paradigma da complexidade, o qual aponta para uma compreensão reflexiva da forma de se produzir e das relações de poder hegemonicamente instituídas.

 

            É cada vez maior o número de pessoas, governos e instituições preocupadas com a questão ambiental, porém nem todos tomam a mesma sob a ótica da complexidade. Sob esta ótica, uma compreensão reflexiva coloca em pauta a mudança do atual modelo de “crescimento” para um modelo de “desenvolvimento”, ou seja, para um modelo efetivamente “sustentável”. Os governos ainda tem uma postura resistente a este novo modelo, pois temem a tão propalada “retração” na economia. Porém, decisões complexas exigem identificação das problemáticas tanto em termos quantitativos como qualitativos.

 

             Isto significa dizer que a questão ambiental traz consigo a exigência de uma profunda reflexão sobre os rumos da sociedade. Os atuais dilemas socioambientais, colocam em xeque as verdades absolutas, e, sob o paradigma da complexidade, evidenciam as relações sociais e humanas, e a relação natureza-cultura. Afirmamos assim, que os atores sociais precisam articular ações tanto no campo político como no campo cultural em torno do princípio da sustentabilidade, bem como desenvolver práticas efetivamente democráticas e solidárias nas relações entre os indivíduos.

 

             A partir destas idéias, destacamos aqui a necessidade de uma educação ambiental efetivamente crítica, e que para nós, é aquela que articula-se entre diversos atores e setores, perpassa interdisciplinarmente a educação formal e não-formal, trabalhando significações e re-siginificações e contemplando as inter-relações do meio natural com o social. Configura um processo educativo que busca alternativas para uma nova forma de desenvolvimento que priorize a sustentabilidade socioambiental, reconhecendo que isto somente é possível através do amadurecimento e prática de conceitos como ética, cidadania, co-responsabilidade, identidade cultural e diversidade.

 

            Sob estes aspectos, a educação ambiental crítica repensa a realidade de modo complexo, definindo-a como uma nova racionalidade e um espaço capaz de articular natureza, técnica e cultura, possibilitando-nos outras formas de ver, narrar, sentir e com isso produzir novas relações entre o homem e o meio ambiente.

 

             Portanto, repensar a forma como homem historicamente utiliza os espaços e seus recursos, constitui-se um desafio para os educadores ambientais, que inicialmente precisam trabalhar com uma mudança na forma como o homem se percebe no mundo. Para isto torna-se necessário questionar o paradigma da certeza e da simplicidade que ainda aprisiona as práticas educacionais, privilegiando-se metodologias e práticas interdisciplinares que fomentem a concepção de complexidade e de mudanças na relação homem-ambiente.

 

             Destacamos, e propomos, para uma educação ambiental crítica,   a  concepção de Boaventura Santos de “pensarmos no conhecimento como autoconhecimento”. Aqueles conhecimentos que produzimos nas relações de poder e saber, não estão livres das nossas crenças, nossas aspirações e projetos de vida. Portanto, os conhecimentos da educação ambiental devem estar interrelacionados com as formas como enunciamos a nossa vida, o que nos coloca como sujeitos produzidos e da mesma maneira produtores de conhecimentos científicosociais críticos, capazes de alterar nossa maneira de estar e permanecer no mundo.

 

 


 

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