EDUCAÇÃO PARA INCLUSÃO – desafio às transformações dos sistemas educacionais na pós-modernidade

 

Alexandre Michelin – acadêmico do Curso de Ciências Sociais – Licenciatura

- Texto elaborado na disciplina de Sociologia da Educação – 1º sem. 2012-

- Revisão: Prof. Dr. Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira

 



    A construção dos sistemas de educação sempre esteve atrelada ao discurso coercitivo da inclusão sistêmica dos indivíduos nas sociedades, caracterizando-se assim, uma questão política permeada de contradições.

   Não raro, esses sistemas educativos geraram distorções como a exclusão de uma parte dos sujeitos, ao invés de gerar incentivos às oportunidades de desenvolvimento para a totalidade escolar. Adriana Puiggros (2010) coloca a necessidade da construção de uma pedagogia que evite a formação de espaços "expulsivos" dos alunos de classes diversas, que geralmente ocorre por processos de avaliação que perpetuam a exclusão dos mesmos do espaço escolar.

   Um desafio para a escola é, conforme Puiggros, o reconhecimento da avaliação e certificação de saberes que são adquiridos fora da escola formal, ou seja, diversos saberes que os estudantes adquirem mediante processos não formais em suas redes de convivência, que se mostram construtores de uma sabedoria social para a vida.

   Dessa forma, pode ser possível o fortalecimento do caráter inovador dos sistemas educativos, valorizando-se a conexão entre os conteúdos escolares e o aprendizado da vida prática dos estudantes, com a finalidade de uma qualificação do aprendizado escolar.

   Mar Romero (2010), também aborda uma interação em rede com o reconhecimento dos conhecimentos não formais e locais para a construção de uma educação renovadora. Assim, os vínculos entre os múltiplos atores: professores, alunos, famílias, voluntariados e outras entidades, podem contribuir para a formação de um sistema educativo amplo e crítico. Segundo Romero, a aplicação de perspectivas conceituais e de outros campos de pensamento e de espaços de ação não educativos, constituem uma forma de polinização cruzada, que pode produzir fórmulas imaginativas e transformar radicalmente a instituição escolar.

   A ampliação destas perspectivas conceituais, de acordo com Romero, promoveria um ativismo pedagógico global, com formas de ensino e aprendizagem não isoladas, renovando-se as chances do exercício democrático dentro da sociedade global/ digital e promovendo-se uma visão solidária, ecológica e transcendental do futuro da humanidade.

   Puiggros coloca ainda, que é preciso construir formas de vinculação entre pedagogia e tecnologia no sentido de um permanente processo de inclusão e democratização de todo o sistema educativo. Sobre este aspecto, propõe a criação de dispositivos educacionais que facilitem o trânsito de todos e a comunicação simultânea dentro dos sistemas educativos.

   Em sua análise, a autora salienta o uso das tecnologias de comunicação e informação como força inclusiva e de democratização, destacando a contribuição dessas tecnologias para a construção de formas mais avançadas de estruturas curriculares, e, por consequência, formas de avaliação que possam ir ao encontro de um sistema democrático de educação.

   Por isso, um aspecto norteador da transformação dos sistemas educacionais para uma inclusão no sentido do desenvolvimento das pessoas, está no serviço prestado pelas ferramentas tecnológicas digitais, promovendo, como diz Juana Gil (2010), condições pedagógicas, sociais e culturais que permitam converter as escolas em centros de aprendizagem abertos ao mundo. Com isto, objetiva-se que os sujeitos engendrem o seu acesso às grandes plataformas de democratização das oportunidades econômicas e de livre iniciativa que estão em construção no contexto da nova economia e da sociedade da informação.

   Sobre a questão das novas tecnologias, Michael Fullan (2010) discute a implementação das comunidades de aprendizagem escolar em todas as escolas, conectadas numa rede com grande interação de experiências escolares. Salienta como exemplo, as escolas da província de Ontário, no Canadá, onde foi implantado nas escolas turno integral para as crianças, com atenção na primeira infância, e a construção de um programa de busca de resultados na educação.

   Este programa, focado na "construção de capacidades", incorpora, no espaço das escolas, funcionários especialistas em rendimento e êxito estudantil, investimentos em aprendizagem profissional e interação por redes virtuais. Evidencia-se também, o apoio e suporte para escolas e estudantes de menor rendimento, dentro dos parâmetros estabelecidos pelo sistema escolar. Fullan ainda salienta a necessidade de inovações que contribuam para o desenvolvimento de habilidades para a criatividade e a solução de problemas, e entende o uso da tecnologia como um processo irreversível na sociedade do século XXI.

   Outra tendência é o crescimento do grau comparativo com experiências internacionais de educação que mostraram maior êxito. Neste sentido, busca-se um maior desenvolvimento através da revisão estratégica dos sistemas de educação, visando-se o desenvolvimento de habilidades mais profundas e do êxito escolar em grande escala.

   A proposta de Fullan está alinhada à narrativa do paradigma técnico-científico no qual vivemos, pois contempla, prioritariamente, a busca da eficácia dos sistemas escolares no sentido da formação de atores sociais de alto rendimento escolar.

   Este tipo de reforma é bastante criticada por Gary Anderson (2010), que considera um desafio para os educadores, questionarem os pressupostos ideológicos das reformas educacionais na atualidade. Para ele, as reformas estão sendo implementadas de acordo com as ideologias produtivistas. As estruturas curriculares, por exemplo, se reduzem a testagens estandardizadas de conhecimentos dos conteúdos aplicados. Considera, o autor, que precisamos avaliar metas que contemplem conhecimentos além do âmbito dos conteúdos escolares, ou seja, conhecimentos físicos, cívicos, emocionais, sociais, vocacionais e de pensamento crítico.

   O pensamento de Anderson vai ao encontro da pedagogia crítica revolucionária de Peter McLaren e Luis Huerta-Charles (2010) no que tange às necessidades dos educadores compreenderem como as dinâmicas dos sistema capitalista têm guiado o sentido e as finalidade das reformas educativas e toda sua influência nas instituições.

   Se as reformas educacionais são dirigidas pelas dinâmicas capitalistas, com sua hegemonia global e transnacional, como colocam Mclaren e Huerta-Charles, e se a lógica do capital é “o grande código da vida social”, como observado cotidianamente, os sistemas educativos devem preparar as pessoas com competências sociopolíticas e culturais que possibilitem-lhes o acesso aos meios de produção, às ferramentas tecnológicas, e, por conseqüência, aos benefícios econômicos, que, mesmo em época de capitalismo informacional, são privilégios de poucos.

 

Referências:

- Os autores citados, desenvolveram suas análises/propostas para as transformações dos sistemas educativos no dossiê: “En qué Dirección se Orientará la Investigación sobre cambio educativo en los próximos diez años? La opinión de los especialistas”. RMI, Octubre-Deciembre 2010, VOL.15, NUM 47, PP.1093-1145.

 


Educação Pós-moderna