"É PROIBIDO PROIBIR..."*

HOLGONSI SOARES

Professor Assistente do Depto. de Sociologia e Política - UFSM -

*Publicado no jornal "A Razão" em 22.08.97

"é mais fácil desagregar um átomo do que os preconceitos"

(Albert Einstein)

A questão da tecnologia tem causado um grande impacto na escola (em todos os níveis). Isto explica-se devido a enxurrada de elementos novos e a exacerbação de antigos que, advindos do avanço tecnológico têm proporcionado rupturas e/ou superposições definidoras de um novo paradigma neste final de século/milênio. Porém frente ao mesmo, é extremamente reduzido o número de professores que buscam um entendimento sobre os desafios que já está enfrentando, com o objetivo de traçarem uma linha de ação condizente com a realidade que estão inseridos. A maioria, frente aquele impacto, prefere continuar arraigada a uma concepção de educação, política, ciência... enfim, mundo, que não possui mais sustentação. Divididos em "pessimistas tecnológicos" (que como diz A.Jabor: "são os paranóicos que acham que o neoliberalismo é uma trama da IBM e da Microsoft em Washington") e "indiferentes tecnológicos" (nada faz parte de nossa realidade; tudo está muito distante, "lá... nos países desenvolvidos"), os professores conseguem apenas exercitar a consciência ingênua, sob cujas asas foram criados, e com isto seus preconceitos em relação "ao diferente" fazem da escola um local que limita a imaginação criadora, a consciência crítica e consequentemente o desenvolvimento global das inteligências.

Um exemplo ilustrador: na reportagem sobre o tamagotchi ("o mascote virtual..."-ZH-17/08), "banido da sala de aula", a Psicóloga Denise Maia, concordando com a "banição do animalzinho cibernético" , afirma :"(...) As escolas tiveram de proibir. Mais uma vez foram os educadores que souberam estabelecer limites(...)". Vamos esperar agora, a reação dos professores frente ao lote de 6.060 computadores de última geração que chegarão as escolas e serão ligados à Internet. Talvez farão piquetes capitaneados por slogans do tipo: "neoliberalismo", "imperialismo cultural", "fora globalização", "pós-modernidade reacionária"... impedindo a instalação destes produtos diabólicos do capitalismo(!).

Das séries iniciais à pós-graduação, a escola sempre foi perfeita nisto. A tudo que é novo, desafiador e complexo, responde com "proibições"; quem colabora com isto ainda recebe o nome de "educador". É mais fácil/prática esta atitude, do que redefinir a prática educativa a partir dos desafios da realidade histórica concreta, pois para isto, (em todos os níveis), é necessário um questionamento constante sobre: "Educar - como?, para quê?, o que?" (T.Adorno) . Com certeza as respostas não serão padronizadas, muito menos fixas, menos ainda iguais as de uma década atrás, e que foram sacramentadas por uma estrutura burocrática autoritária que se vangloria de " saber estabelecer limites".

O avanço tecnológico não é anterior ou posterior a outras problemáticas da escola (estrutura física, baixos salários, pobreza dos alunos...). Não é após a resolução destes que se deve pensar naquele, mas sim concomitantemente, pois do contrário é que estamos colaborando para manter nossa eterna posição de "submissos". A crítica autêntica só é possível através da participação ativa no processo. Com relação as inovações contemporâneas e a escola, a Dr.a Léa Fagundes(UFRGS) tem toda razão: "a escola é uma das instituições mais reacionárias". As inovações podem enriquecer e dar vida ao ambiente educacional; como diz Léa, "dá para fazer muita coisa, só o que não dá para fazer é proibir". Portanto, para uma escola que sempre proibiu, a ordem agora (num espaço-tempo globalizado) é: proibido proibir... pensar, falar, questionar, criticar/discordar, criar/mudar/inovar... Nossos alunos e a sociedade agradecem.

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