"Formação interdisciplinar: exigência sóciopolítica para um mundo em rede"*

Prof. Dr. Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira

* Artigo referente à conferência de mesmo título, proferida pelo autor na abertura do VII Simpósio Estadual de Economia Doméstica (tema: "Interdisciplinaridade no contexto universitário"), na UNIOESTE, campus de Francisco Beltrão-PR, em 08/12/2003


1- INTRODUÇÃO

No contexto pós-moderno, marcado por profundas mudanças de todas as ordens, a questão referente à formação interdisciplinar dos indivíduos vem se fazendo presente com muita força nos espaços educativos formais e informais.

Um grande grupo, formado por aqueles que estão mais voltados para a nova configuração global do mundo do trabalho, defende que a preocupação central da educação deve ser, principalmente, formar uma mão-de-obra competente (para usar a palavra em vigor). Para isso destacam, como exigência básica, uma formação interdisciplinar, que, sob essa ótica, fica associada às novas formas de organização do mundo do trabalho e da produção resultantes da acumulação flexível de capitais.

Há também os que defendem esse tipo de formação, mas com um objetivo basicamente político, ou seja, a transformação das condições socioeconômicas cada vez mais perversas para a maioria da população, passa por indivíduos capazes de ver/entender o mundo e suas problemáticas, não de forma fragmentada, mas sim através de uma visão interdisciplinar (leia-se "inter-relacionada") das questões políticas, econômicas, socioculturais e tecnológicas contemporâneas. Nessa visão, a formação interdisciplinar associa-se a uma participação política ativa.

A partir dessas posições, este artigo tem como objetivo principal destacar a importância de uma formação interdisciplinar, tendo como argumento central que o mundo pós-moderno (do capitalismo multinacional ou tardio) é um mundo em rede, e a compreensão de suas novas problemáticas e seus riscos e de tudo o que nele acontece (e que repercute em todas as arenas da vida) passa pela exigência de uma formação interdisciplinar.

Assim, delimitarei a análise tendo por base o viés sóciopolítico do debate, porém não nego a importância do econômico, ou seja, também defendo uma formação interdisciplinar devido a uma exigência do novo mundo do trabalho, mas vou privilegiá-la aqui como uma possibilidade para que nossas escolhas, a partir da compreensão deste novo contexto, sejam feitas de maneira que contribuam para um mundo mais solidário, mais justo, mais democrático e, consequentemente, com uma melhor qualidade de vida.

 

2- FORMAÇÃO INTERDISCIPLINAR: exigência sóciopolítica para um mundo em rede

"Trabalhar, viver, conversar fraternalmente com outros seres, cruzar um pouco por sua história, isto significa, entre outras coisas, construir uma bagagem de referências e associações comuns, uma rede hipertextual unificada, um contexto compartilhado, capaz de diminuir os riscos de incompreensão" (Pierre Lévy, 1993, p. 72-3).

A noção de rede hoje nas ciências humanas diz respeito a uma "acepção" inédita e muito ampla do termo e, de acordo com Bruno Latour (citado por Dosse, 2003, p. 132) "as redes são ao mesmo tempo reais como a natureza, narradas como o discurso, coletivas como a sociedade".

Existem inúmeras interpretações para o termo "rede", que vão da antropologia à informática, passando pela política, pela economia, etc. Uso o termo aqui para dizer que o mundo hoje é um mundo conectado em tempo real e que, por isso, os acontecimentos globais influenciam nossa vida cotidiana e, por sua vez, os acontecimentos locais repercutem na arquitetura global. Em outras palavras, em um mundo em rede, as ações afetam o "mundo-como-um-todo". Uso o termo também para me referir ao estado de conectados em que vivemos, seja no ciberespaçotempo, seja com um microgrupo de ação.

Nas redes, vejo os aspectos sociais, políticos, culturais, econômicos e tecnológicos entrelaçados, e há redes que buscam a mudança social, enquanto outras lutam pela manutenção do status quo. Por isso, as redes de movimentos envolvem desde os que lutam contra a discriminação até os que lutam a favor do racismo. Em rede se organizam os pacifistas, mas também os terroristas, ou seja, sob qualquer forma, vivemos em um mundo em rede.

No centro dessa nova formação sóciopolítica, estão as novas tecnologias de informação e comunicação e suas influências produtivas e não-produtivas sobre o indivíduo pós-moderno. A partir disso, destaco o caráter sóciotécnico das redes, ou seja, as redes conectam sujeito e objeto, mundo da técnica e mundo da consciência, humano e não-humano e, através delas, correm os fluxos de pessoas, de informações, de imagens, de poder e ideologias e também os fluxos de saberes e competências.

Para Dosse (2003) as novas tecnologias tendem a deslocar a noção tradicional de sujeito, a criar próteses tecno-subjetivas, ou como as qualifica Bruno Latour, "híbridas", e com elas novas formas de sofrimento humano, em uma relação inédita entre, digo eu, uma pós-modernidade avançada ou radicalizada e o mal-estar que todos sentimos/vivemos.

Assim, seguindo o pensamento de Dosse, entendo que somente uma formação interdisciplinar é capaz de nos dar subsídios para enfrentarmos os grandes problemas que afligem a humanidade (como por exemplo, os problemas ambientais, as doenças, a exploração de seres humanos, as desigualdades sociais, o desemprego, a pobreza, a fome e a miséria), a incerteza e o mal-estar que os acompanham, possibilitando-nos uma melhor inteligibilidade do social, e assim projetarmos novas alternativas tanto para os novos problemas como para a intensificação dos antigos no espaçotempo em que vivemos.

Por isso, acho correto afirmar que, através de uma formação interdisciplinar, temos uma compreensão satisfatória da realidade, problematizamos os obstáculos e ampliamos a compreensão do sentido do que se faz, se pensa e sente. É essa formação que permite aos indivíduos interpretar, questionar e não apenas assimilar, construir e não apenas reproduzir.

Com uma formação interdisciplinar também saímos "da rotinização e das falsas garantias com que se enfeitam as disciplinas" (Dosse, 2003, p. 403) e superamos as concepções pobres e mutiladoras, advindas de uma formação disciplinar baseada na fragmentação.

Concordo com Wallerstein (1999), que a fragmentação se justifica "apenas" por uma questão política, pois concretamente não encontramos nada mais que valide as reivindicações intelectuais à separação. Os pretensos critérios caíram por terra e, quando insistem em se manter, são obstáculos à criação de novos conhecimentos e a uma visão de totalidade do homem e do mundo.

Um mundo em que "...não há paradigma verdadeiramente unificador, mas uma constelação de disciplinas engajadas...o que leva a questões sobre as fronteiras que separam as disciplinas, sobre sua especificidade, sua historicidade, seu objeto..." (Dosse, 2003, p. 241). A formação interdisciplinar, tendo como categoria central a inter-relação, possibilita aos indivíduos estabelecerem vínculos de confluência, transgredirem as fronteiras tradicionais e articularem, em suas várias dimensões, os saberes fragmentados.

Porém quero destacar aqui que, no mundo em rede, não só as fronteiras que separam as disciplinas são questionadas, mas, na verdade, toda e qualquer fronteira perde seu sentido tradicional. Somos novamente colocados frente à tradicional oposição entre corpo e espírito, sujeito e objeto, razão e emoção, enfim, temos que enfrentar o questionamento da fragmentação e, consequentemente, os obstáculos e as possibilidades das relações (multidisciplinaridade), e, principalmente, das inter-relações (interdisciplinaridade).

O mundo em rede não é um mundo homogêneo e rígido, mas sim hiperplural, indeterminado e que se caracteriza pela flexibilidade e pela imprevisibilidade das mudanças e aceleração de seu ritmo. Sob este aspecto, há a necessidade de uma formação interdisciplinar porque esta não se assenta em leis universais, com regularidades e permanências, pois reconhece que a realidade é complexa e, portanto, não cabe em esquemas reducionistas.

Justifico também as exigências para uma formação interdisciplinar, porque estamos em um mundo em rede, em que são indeterminados os pontos de acesso, as questões e suas respostas são infinitas, os diversos mídias passam por um processo de íntima associação, as organizações científicas são diversificadas, descentralizadas e transitórias, o saber reflexivo é valorizado bem como as "comunidades de saber" (P. Lévy), as quais visam articular o saber individual e coletivo.

Nesse contexto, a intertextualidade da vida é descortinada a todo instante, uma vez que nossa vida é formada por uma cadeia complexa e dinâmica de inúmeros elementos, constituindo-se, dessa forma, em um hipertexto por excelência. Mas se por um lado a vida como um hipertexto é interdisciplinar por natureza (e aqui especifico: nosso corpo, nossas ações, as cidades...o mundo), por outro, ela exige uma formação de mesma orientação (interdisciplinar) para sua leitura.

Com base nessas idéias, destaco (sem o objetivo de esgotar) como características principais de uma formação interdisciplinar:

1) está em constante movimento de re-construção, e não despreza nenhum elemento para sua renovação, sejam eles humanos, técnicos, palavras, imagens, (e tudo o que a eles se relaciona);

2- entende cada elemento como portador de possibilidades para inúmeras inter-relações, as quais, à medida que vão se desvelando, vão enriquecendo nossa visão da vida e nossa visão de mundo;

3- não vê/compreende/interpreta os textos e contextos de forma linear, mas a partir do diálogo entre cada interconexão que se estabelece, ficando livre para o indivíduo, de acordo com sua biografia, tecer a sua rede e seus significados próprios, o que está de acordo com o conceito de produção e não de re-produção, e,

4- reconhece que todas as coisas são incompletas, por isso não combina com inércia intelectual.

Considerando essas características, algumas mudanças radicais se fazem necessárias nos atuais espaços educativos formais para se trabalhar com o objetivo de uma formação interdisciplinar, entre elas:

- da rigidez para a flexibilidade, em todos os aspectos da estrutura educacional;

- do paternalismo para a autonomia dos alunos, para que os mesmos se desenvolvam como atores capazes de reativarem múltiplas possibilidades e proporem novas interpretações;

- de professores reprodutores para educadores autônomos que, como diz Demo (1993), possam elaborar projetos políticos próprios;

- de uma metodologia marcada pelo seqüenciamento linear para uma marcada pela não-linearidade;

- da certeza e correção para abertura e aceitação da incerteza e do erro, considerando-os como condições de possibilidades para novos arranjos;

- da voz única do professor para uma multiplicidade de vozes (amplos espaços dialógicos), possibilitando-se, assim, a realização da "democracia dialógica" e da produção de novas formas de conhecimento, subjetividade e identidade.

- por fim, resumindo todos esses pontos e tendo por base o pensamento de Doll Jr. (1997), afirmo que uma formação interdisciplinar só será possibilitada por estruturas educacionais que não sejam norteadas pelos princípios dos sistemas fechados (característicos da modernidade, que só transmitem e transferem), mas sim pelos princípios dos sistemas abertos (característicos da pós-modernidade e que têm a mudança por essência).

Entendo, porém, que essas mudanças somente se processarão com sucesso, quando a escola/universidade estabelecer novas conexões com outros "jogos de linguagem" (Wittgenstein/Lyotard), com outros espaços educativos (sejam eles de cunho político, artísto-cultural, econômico, etc.) potencializadores por excelência do viés sóciopolítico de uma formação interdisciplinar. Mas jamais atribuo a responsabilidade por novas conexões apenas à escola/universidade. Os indivíduos também devem procurar, por si, participar desses espaços educativos informais, sendo, reafirmo, essa a única maneira de se ter uma formação efetivamente interdisciplinar.

Cabe, isto sim, à escola/universidade reconhecer que, em um mundo em rede, um currículo rígido que privilegia apenas o ensino das disciplinas tradicionais (e na maioria das vezes ainda de forma fragmentada), não será capaz de atender às exigências da formação interdisciplinar. Portanto, deverá a escola/universidade integrar essas participações no currículo dos alunos, o que, por sua vez, abre oportunidades para que eles exercitem sua autonomia na composição de suas grades curriculares.

Acho relevante destacar que uma formação interdisciplinar também diz respeito à formação de indivíduos aptos ao novo mundo do trabalho, o qual é marcado por mudanças que se assentam nos saberes e competências dos indivíduos e, cujas possibilidades, passam por uma formação interdisciplinar que possibilite ao indivíduo combinar saberes, competências e percepção ética em um contexto de trabalho marcado pela presença das novas tecnologias.

O problema em relação a essa questão está no fato de tomá-la de forma isolada daquelas que levantei anteriormente. Nesse caso, usando a linguagem de Lyotard (1986), a interdisciplinaridade nada mais seria que um instrumento para incrementar a performance dos indivíduos no trabalho, deixando-se de lado a busca da autonomia política e da realização da vida humana.

Portanto, a formação interdisciplinar que defendo resulta de uma metodologia interdisciplinar voltada para a formação "onilateral" (seguindo uma concepção Gramsciana) do indivíduo. Dessa forma considera que o fundamento do ato educativo constitui um sistema formado por um conjunto de dimensões de ordem política, sociocultural, econômica e tecnológica.

Relembrando a citação inicial que usei de P. Lévy, eu diria que a formação interdisciplinar é intrinsecamente rica nas possibilidades para construção de bagagens de referências e associações comuns, é ela que nos abre o compartilhamento de contextos. Em um mundo em rede marcado pela emergência das diferenças, é através de uma formação interdisciplinar que poderemos respeitar o Outro como ele é (como diz o próprio Lévy: e quem é o Outro? É um Ser que sabe), estabelecer com o Outro o diálogo, cruzando por sua história.

Sendo assim, em última instância afirmo que as possibilidades de "democracia dialógica" como uma condição da solidariedade social e assim a diminuição dos riscos de incompreensão passam, necessariamente, por uma formação interdisciplinar, o que a coloca como uma exigência sóciopolítica para um mundo em rede.

 

3- CONSIDERAÇÕES FINAIS

A formação interdisciplinar constitui-se uma exigência básica na sociedade contemporânea. Deve ser tomada como um imperativo dos mais importantes das novas condições da produção do conhecimento científico, como também das novas condições de ser e de estar no mundo em rede. Suas dimensões econômica, política e sociocultural não devem ser dissociadas, pois isso a descaracterizaria como tal.

No que tange à constituição de um mundo em rede, marcado pela complexidade, uma formação interdisciplinar não só possibilita uma efetiva compreensão desse mundo como é o que melhor capacita os indivíduos nas tomadas de decisões e nos processos de escolhas.

Já no mundo do trabalho, profundamente alterado por novas tecnologias, a formação interdisciplinar facilita os indivíduos no desenvolvimento de novos saberes e novas competências que hoje estão sendo requisitados.

Uma formação interdisciplinar está em sintonia com o tempoespaço do qual faz parte, insiste nas ações em movimento, e suas produções são contextualizadas. Sendo assim, tem por base a mutabilidade (e, portanto, a abertura para o novo), a flexibilidade, a não-linearidade e o respeito pelas diferenças.

O discurso sobre essa formação está bastante presente nos espaços educativos formais, porém sua efetivação ainda é uma utopia para os educadores preocupados com uma educação crítica e que por isso mesmo deve corresponder às necessidades do contexto histórico em que está inserida.

As possibilidades de ações interdisciplinares por parte da escola/universidade, que venham a colaborar na formação interdisciplinar dos indivíduos, dependem de mudanças radicais nessa instituição, mudanças estas que rompam com a rigidez que ainda é predominante em toda a estrutura educacional.

Isso se relaciona com questões de ordem econômica, sociocultural, pedagógica e, principalmente, política, porque as estruturas institucionais (entre elas as educacionais) que dão respaldo a atitudes fragmentárias somente serão atingidas quando o trabalho interdisciplinar for capaz de uma forte influência política.


4- NOTAS

1 Estou me referindo ao conceito de globalização dado por Giddens (1991), segundo o qual a globalização diz respeito à intensificação das relações sociais em escala mundial e às conexões entre as diferentes regiões do globo, por meio das quais os acontecimentos locais sofrem a influência dos acontecimentos que ocorrem a muitas milhas de distância e vice-versa.

2 Expressão do sociólogo Roland Robertson para definir a globalização.

3 Segundo Wallerstein (1999), o qual toma por base a infundada divisão entre as ciências sociais, estes critérios são: nível de análise, objeto, métodos, pressupostos teóricos.

4 Aqui Dosse destaca: as neurociências, a psicologia, a lingüística, a filosofia, a antropologia e a informática.

5Torna-se necessário destacar que, ao trabalharmos com ações interdisciplinares, não devemos negar a importância das disciplinas, porque é através dos conhecimentos e interesses adquiridos através de uma disciplina que se pode despertar o interesse para aproximações interdisciplinares. Porém, jamais devemos tomar como princípio a tendência limitadora implícita em cada disciplina.

6Conceito de Giddens (1997), que significa "o reconhecimento da autenticidade do outro, cujas opiniões e idéias estamos preparados para ouvir e debater, como um processo mútuo" (p. 130).

 

7Ao contrário da lógica fordista, caracterizada pela centralidade dos conceitos de trabalho manual, produção de bens e fadiga, nas novas formas de organização do trabalho (pós-fordistas) os saberes e competências constituem-se objetos centrais da produção.


4- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DEMO, Pedro. Desafios modernos da educação. Rio de Janeiro: Ed. Vozes Ltda, 1993.

DOLL JR., William E. Currículo: uma perspectiva pós-moderna. trad. de Maria Adriana V. Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

DOSSE, François. O império do sentido - a humanização das ciências humanas. trad. de Ilka Stern Cohen. São Paulo: EDUSC, 2003.

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. trad. de Raul Fiker. São Paulo: Unesp, 1991.

GIDDENS, Anthony. A vida em uma sociedade pós-tradicional. In: GIDDENS, Anthony. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. trad. de Magda Lopes. São Paulo: Ed. UNESP, 1997, p. 11-71.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência - o futuro do pensamento na era da informática. trad. de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed.34, 1993.

LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. trad. de Ricardo Barbosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.

WALLERSTEIN, Immanuel. Análise dos sistemas mundiais. In: GIDDENS, Anthony & TURNER, Jonatham. Teoria social hoje. trad. de Gilson César C. de Souza. São Paulo: Ed. UNESP, 1999.


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