PRÁTICA INTERDISCIPLINAR NA UNIVERSIDADE: des-contextualização*

HOLGONSI SOARES GONÇALVES SIQUEIRA

Prof. Assistente do Depto. de Sociologia e Política- UFSM

*Publicado no Jornal "A RAZÃO" em 16.09.99

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"O interdisciplinar pode e deve realmente constituir um motor de

transformação pedagógica, talvez o único capaz de restituir vida a

essa instituição praticamente esclerosada, que é a universidade"

(H. JAPIASSÚ).

Em continuação às reflexões desenvolvidas no artigo "Interdisciplinaridade", publicado neste espaço em 01/07 e 09/08/99, quero fazer algumas considerações sobre a prática interdisciplinar, especificamente no espaço da universidade. É imprescindível levantar esta questão, num momento em que o atual contexto histórico concreto coloca a necessidade desta prática em todas as direções. No tempoespaço pós-moderno em que estamos inseridos, as chamadas "fontes de pressão" advindas da aceleração tecnológica, da competição intensificada e do globalismo, atingiram a universidade em todos os sentidos, gerando as "crises de hegemonia, de legitimidade e institucional"(B.Santos); o entendimento e administração das mesmas, requer uma visão/prática interdisciplinar. Por outro lado, os órgãos avaliadores estão privilegiando a interdisciplinaridade e exigindo dos cursos superiores sua implementação (um ponto positivo da avaliação, pela preponderância do qualitativo). Não obstante as exigências externas e internas, a prática interdisciplinar (um debate que não é novo) continua ausente na universidade.

A efetivação da interdisciplinaridade depende de vários fatores, tais como: humildade, comunicação, criticidade, criatividade, compromisso, trabalho em equipes. Estes fatores são limitados no espaço universitário, principalmente pela compartimentalização (do saber e da instituição) que é defendida acirradamente por uma maioria que cultiva "todo tipo de epistemologia da dissociação e do esfacelamento do saber"(H.Japiassú). Isto faz com que o trabalho na universidade seja organizado segundo princípios de estrita segmentação temporal, espacial e programática.

Embora esta situação seja comum à estrutura educacional como um todo (e como falar em educação?!), na universidade agrava-se mais devido à rigidez funcional e organizacional da mesma, a qual "criou a seu respeito o mito da irreformabilidade" (B.Santos), tornando-se uma instituição "avessa à mudança". Como a interdisciplinaridade exige mudança radical, e a flexibilidade para o novo é condição sine qua non para sua efetivação (indo de encontro às estruturas arcaicas, à acomodação, aos dogmatismos e preconceitos ideológicos), logo a mesma é vista como ameaça, nunca como possibilidade. Não se percebe, por exemplo, as vastas possibilidades da prática interdisciplinar para se administrar as dicotomias que formam a "crise de hegemonia" da instituição ("alta cultura-cultura popular; educação-trabalho; teoria-prática"), o que está resultando num processo de rápida decadência.

A ausência da prática interdisciplinar (não do discurso!) nos/entre os trabalhos de ensino-pesquisa-extensão, gerou, neste final de século, uma instituição cujo tempoespaço não coincide com o tempoespaço da cultura atual, ou seja, uma universidade "des-contextualizada". Autodeterminação, amplitude de planejamento, aptidão para as relações sociais e humanas, variedades de comportamento e comunicação desenvolvida, são exigências que não podem ser atendidas por instituições norteadas pelo paradigma da hiperespecialização.

A mudança neste quadro, passa necessariamente pela des-construção do mito da irreformabilidade (reconhecimento da complexidade do momento atual, superação dos limites epistemológicos, psicossociológicos, institucionais), e consequentemente, abertura de um espaço hegemônico ao interdisciplinar.

"Se as condições iniciais dos diferentes problemas mudam incessantemente e se uma reforma milagrosa é simplesmente impossível, estamos, então, condenados a assistir, impotentes, à decadência progressiva, mas certa das universidades? A resposta será certamente "não", se aceitarmos mudar de sistema de referência".(Documento do Congresso de Locarno sobre O interdisciplinar na Universidade).

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