GLOBALIZAÇÃO: CARACTERÍSTICAS GERAIS DO CAPITALISMO GLOBAL*

Autora: Vera Lúcia Brites Jacques

 

* Este texto faz parte da monografia de conclusão do curso de Especialização em Pensamento Político Brasileiro, defendida na UFSM em 23.03.2007, intitulada: “O processo de globalização e suas implicações no exercício da cidadania”.

 

Orientador: Prof. Dr. Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira

 

 


 

Metaforicamente, pode-se comparar a globalização, em curso atualmente, com uma grande tempestade, cujos efeitos vão muito além de uma área geográfica restrita. Nenhum país é totalmente auto-sustentável. Todos dependem um do outro através do comércio de produtos manufaturados, de matérias-primas necessárias das indústrias do país e serviços. Com base nisso, a globalização econômica pode ser entendida como um estágio mais avançado do processo de internacionalização econômica, social, cultural e política que está ocorrendo no mundo capitalista, com mais intensidade, desde os anos 80.

A célebre imagem da população quebrando o Muro de Berlim, em 1989, teve conseqüências muito mais extensas do que a representação da derrocada do ideal socialista da época. Junto à massa humana que ultrapassou o Muro, e metaforicamente colocava um fim à Guerra Fria (1946-89), estava o capitalismo, ávido por expandir suas fronteiras econômicas, políticas e tecnológicas, através de inversões, associações de capitais, transferências de tecnologias e outras operações. Segundo Ianni (1995), foi o grande momento de intensificação e generalização dos movimentos e das formas de reprodução do capital em escala mundial.

A fase em curso do capitalismo, conhecida como globalização, de caráter mundial, global ou planetário mudou conforme a época e o jogo das forças do mercado mundial. Não é propósito, deste trabalho, estudar as origens históricas do processo, nosso objeto de estudo são as contradições e possibilidades da globalização, acentuadas a partir da expansão da década de 80. Porém, se faz necessária uma breve explanação da evolução das etapas anteriores do capitalismo globalizado. Até meados do século XIX, predominavam as nações capitalistas mais desenvolvidas. A seguir, até a Primeira Guerra Mundial, dominavam os imperialismos (Londres, Paris, Berlim, Bruxelas, Amsterdã, Roma, New York, Tóquio).

Com a Segunda Grande Guerra, quando entraram em crise alguns desses imperialismos, os Estados Unidos emergiram como contraponto ao mundo socialista. O mundo se dividiu em dois blocos. Apesar dessa polarização, a globalização seguiu seu rumo. A própria crise do Leste Europeu é uma prova concreta da extensão do capitalismo em curso. Na observação de Ianni (1993, p. 57), essa extensão como “Um processo que havia se intensificado desde o término da Segunda Guerra Mundial, acentua-se com a Guerra Fria, adquire novo ímpeto com a crise do Bloco Soviético”

A agressividade e a ânsia do capital, para ultrapassar as barreiras dos países socialistas, ficaram evidentes em técnicas como, bloqueio econômico, alianças políticas contra países “inimigos” (Estados Unidos e União Soviética na luta contra o nazi-fascismo alemão, italiano e japonês), até propostas de intercâmbio econômico e cultural. Isso mostra que, mesmo antes da Guerra Fria, o capital já se movia e ampliava, e cada vez mais buscava formas de se fazer presente e necessário. Certamente, essa diplomacia enfraqueceu os regimes socialistas e foi responsável pelo seu fim.

Já nos países ditos de “Terceiro Mundo”, onde o capitalismo se expandia durante a Guerra Fria, houve as ondas de desenvolvimento ou milagres econômicos, patrocinados pelo “Primeiro Mundo”, aliado às organizações internacionais. Sabemos que o Brasil não passou incólume. Seduzido e estimulado por essas forças, durante a Ditadura Militar colocou em prática "o Milagre Brasileiro", um momento de grande desenvolvimento e faraônicas obras que, como herança, deixou dívidas imensas com os organismos internacionais.

Quando teve fim a Guerra Fria surgiram novos mercados, no então “segundo mundo”. Era uma gama interminável de possibilidades e novas necessidades que se abriram a esses países. As sedes das corporações saíram do seu “habitat natural”, os países dominantes, e se espalharam pelo mundo, sob vários aspectos “é como se o mundo todo se tornasse o cenário das forças produtivas, acionadas e generalizadas pelas corporações transnacionais, conjugadas com ou apoiadas pelos governos dos países capitalistas dominantes” (IANNI, 1995, p. 50).

Observa-se que ainda hoje, a Ilha de Cuba, uma das raras Repúblicas Socialistas, sustentada com “braço de ferro” pelo líder Fidel Castro, há cerca de meio século, é a menina dos olhos dos Estados Unidos, que aguarda qualquer sinal de enfraquecimento do regime para lançar seu domínio capitalista sobre a Ilha. Outros países da América Latina, alinhados à esquerda ou centro-esquerda, são obrigados a fazer concessões constantes ao capital e aos organismos internacionais, em prejuízo ao seu ideário.

Enquanto se desenvolvia a Guerra Fria no Bloco Soviético, em outros continentes o capitalismo se expandia e adquiria contornos mundiais. Entre esses aspectos estava a nova divisão internacional do trabalho, a flexibilização dos processos produtivos, as empresas, corporações e as transnacionais[1] que se sobressaíam sobre as economias nacionais, foi a arrancada da globalização do capital. Nesse aspecto, faz-se necessária uma distinção conceitual entre globalização do capital ou economia global e internacionalização do capital ou economia mundial. O marco diferencial, para Castells (2003), é o surgimento e expansão das tecnologias informacionais, as quais têm importância fundamental na economia que se tornou economia global, com capacidade de funcionar em tempo real, em escala planetária. Segundo o autor:

 

foi apenas no final do século XX que a economia mundial conseguiu tornar-se verdadeiramente global com base na nova infra-estrutura, propiciada pelas tecnologias da informação e da comunicação, e com uma ajuda decisiva das políticas de desregulamentação e da liberalização postas em prática pelos governos e pelas instituições internacionais (CASTELLS, 2003, p. 142).

 

Dentro desse contexto, em que atuaram o avanço e difusão dos meios de comunicação, os transportes rápidos e as tecnologias de informação têm papel relevante e indissociável as transnacionais para o que se chama, hoje, de Globalização, nos mais diversos aspectos: econômico, cultural e político. O poder adquirido por esses conglomerados foi tão intenso, que não raro houve – e ainda há – interferência desses nos governos nacionais, colocando em dúvida o princípio da soberania em que classicamente se fundava o Estado-nação[2]. Para Ianni (1995 p. 47), “a grande empresa” parece transformar nações das mais diversas categorias em “pequena nação”. O autor observa, ainda, que “as transnacionais redesenham o mapa do mundo, em termos geoeconômicos e geopolíticos, muitas vezes não coincidindo com os mais fortes Estados nacionais” (p. 52).

Dois aspectos chamam mais a atenção na profunda interferência nos Estados-nação, provocada pela aceleração da globalização da economia, com o fim da Guerra Fria do Leste Europeu. Uma é propriamente a questão da soberania política. Nesse contexto, observo que começa a perder espaço e forma a política tradicional, centralizadora de poderes e baseada em instituições nacionais fortes. Para realizar qualquer mudança interna, essas nações têm sempre como parâmetro os ditames internacionais, seja dos grandes conglomerados transnacionais – em geral os financeiros, em que se encontram atrelados – seja do contexto político mundial.

No bojo dessa interdependência global e no avanço das transnacionais está o melhor aparelhamento e modernização administrativa da máquina estatal, a fim de concorrer no mercado internacional, ao qual se encontra inserida. Por outro lado, perde o mundo do trabalho com a privatização, a desregulamentação e a flexibilização das leis trabalhistas. A outra transformação é na área econômica dos países. A moeda nacional torna-se um reflexo da moeda mundial, em um primeiro momento o dólar, depois o Euro. A “dolarização” das economias dos países em desenvolvimento é uma realidade, influindo em grandes negócios, exportações, importações de grande vulto, até mesmo em pequenas situações do cotidiano, como produtos da prateleira dos supermercados.

As bases nacionais do capitalismo, praticado na maioria dos países, não deixam de existir por completo, mas já não são tão determinantes, ficam atreladas à dinâmica global do capital como forma produtiva. Essa vai bem além da influência econômica e política, atinge culturas e civilizações. Segundo Ianni (1995, p. 48),

 

entendendo-se que o capital é um signo e o capitalismo é o emblema dos grupos e classes dominantes em escalas nacional, regional e mundial. Isto é, o capital de que se fala aqui é uma categoria social complexa, baseada na produção de mercadorias e lucro, ou mais valia, o que supõe todo o tempo a compra da força de trabalho; e sempre envolvendo instituições, padrões sócio-culturais de vários tipos, em especial os jurídicos-políticos que constituem as relações de produção.

 

Atualmente, identificamos a globalização na formação dos gigantescos blocos econômicos (União Européia, Nafta, Mercosul, ALCA, entre outros), na volatilidade do capital[3] internacional, na fragmentação do mercado de trabalho e produção, no crescimento do setor invisível da economia (serviços), no desemprego e na influência cultural das sociedades dominantes, entre outros indicativos. Na esfera econômica, a adoção de uma moeda única européia, o Euro, é uma prova de que os Estados, hoje, adotam políticas que buscam, cada vez mais, a integração entre os países.

Considero importante destacar as características do momento histórico atual da globalização, apontadas por Ianni (1995, p. 58). O conjunto dessas mudanças é contraditório, apresentando limites e possibilidades: em primeiro lugar, o autor cita a energia nuclear como a mais poderosa técnica de guerra, inicialmente, nas mãos das nações mais poderosas e, em seguida, disponível com dirigentes de países do chamado “segundo e terceiro escalão”. Segundo, a revolução informática, baseada nas conquistas da eletrônica, que coloca nas mãos dos “donos do poder” – de países dominantes e outros secundários – uma capacidade de formar, informar, induzir e seduzir, nunca antes alcançada na mesma escala. Terceiro, a formação do Sistema Financeiro Internacional, em conformidade com as exigências da economia capitalista mundial e de acordo com as determinações dos países dominantes. Quarto, as relações econômicas mundiais, compreendendo a dinâmica dos meios de produção, das forças produtivas, da tecnologia, da divisão internacional do trabalho e do mercado mundial, amplamente influenciadas pelas exigências das empresas, corporações ou conglomerados multinacionais, transnacionais, mundiais, globais e planetários. Quinto, a reprodução ampliada do capital universaliza-se em nova escala, com novo ímpeto, recriando relações em todas as partes do muundo, pressionando as nações socialistas, influenciando, bloqueando ou rompendo os seus sistemas econôompendo os seus sistemas econ, bçloqueando ou as naçconcentraçnfluenciadas pelas exig mesma escalasos de trabalho e produçfammicos. Sexto, o inglês se transforma na língua universal, por meio do qual se articulam e expressam indivíduos, grupos e classes, em países dominantes e dependentes. E, por fim, em sétimo, o ideário do neoliberalismo adquire predomínio mundial, como ideologia e prática, modo de compreender e agir, forma de gestão do mercado e poder político, concepção do público e do privado, ordenação da sociedade e visão do mundo.

Engana-se quem pensa que a globalização, baseada na expansão do capitalismo, se esgota apenas no mundo da economia. Em sentido genérico, o processo é a quebra de barreiras entre nações, econômicas, políticas, culturais e sociais. Em sentido mais restrito significa integração, internacionalização e uniformização de idéias, valores e atitudes. Na definição de Giddens (1996, p. 13), a globalização trata, efetivamente, da transformação do espaço e do tempo, “Eu a defino como ação à distância e relaciono sua intensificação nos últimos anos ao surgimento da comunicação global instantânea e ao transporte de massa”. Ianni (1993) trata a globalização como um “processo civilizatório universal” que continuou se desenvolvendo no século XX como um modo de produção,

 

material e espiritual, simultaneamente nacional e internacional, a rigor um processo civilizatório universal. Esta tendência, inerente a este modo de produção desde os seus primórdios, revela-se bastante acentuada ao longo da época contemporânea. A despeito das oscilações cíclicas, suas crises e contradições, ele se generaliza e se recria como um modo de produção material e espiritual de âmbito global (IANNI, 1993, p. 53).

 

 

 Apesar de toda essa abrangência e da influência direta na vida das pessoas e das nações, segundo Giddens (1996, p. 73), “muitas pessoas pensam se tratar de assunto exclusivo dos pós-modernos ou pós-tradicionais”. Para Giddens (1996), a globalização, denominada por ele de sociedade “pós-tradicional[4], é uma época de finalizações, onde se profetiza o fim de tudo, fim de século (XX), enfim uma nova agenda. Esse é um processo inexorável, com grandes conquistas e possibilidades, o seu avanço e expansão independem da nossa vontade, nos mantêm presos, escravizados e, até certo ponto, perdidos. Por outro lado, temos liberdade de interferência e instrumentos capazes de provocar mudanças através de uma ação política dos indivíduos organizados.

Penso que, quando Giddens (1996) fala em época de finalizações ou em fim de século, com todas as ameaças que rondaram esse período, temos de repensar de que tipo de finalização ele nos fala. O próprio autor questiona conceitos exagerados como o “fim da história” ou o “fim da geografia”. Nessa primeira década do século XXI, o fim do século não é mais um monstro desconhecido, não fomos atacados por seres extraterrestres e nem houve choque de planetas. Mas continuamos em perigo constante, ameaças reais, forças criadas e “recriadas”, como o terrorismo e a violência urbana. Não é exatamente o fim que assusta, mas a interminável transição para o desconhecido. ”É um mundo em que a possibilidade e o perigo estão equilibrados em igual medida” (BECK, GIDDENS e LASH, 1997, p. 75).

A “Destruição Criativa”[5], um dos conceitos apresentados por David Harvey, em 2005, para entender a “modernidade”, também se insere nesse mesmo contexto, ou seja, o novo tem de ser construído a partir das cinzas do antigo. Há muitas denominações para o atual estágio do capitalismo mundial. Para esclarecer o significado da globalização, Harvey (2005) faz a relação com a questão da pós-modernidade e trabalha com o conceito de “compressão do tempo-espaço”. Giddens (1996) fala da Sociedade Pós-Tradicional, nela, a modernidade não se opõe à tradição, mas trata de recriá-la enquanto a dissolve. Para exemplificar, esse mesmo autor cita aspectos fundamentais da vida social que atravessaram décadas, adaptando-se ao novo momento, como a família, alguns ritos de passagem (quinze anos, casamento, entre outros) e a identidade social. “Não é o fim da tradição, mas sim a tradição em constante processo de transformação” (p. 74), esclarece o autor. 

Sobre essa transformação das tradições, Giddens (1996, p. 74) destaca dois aspectos que estão diretamente relacionados e que se tornaram intensos, na época atual: primeiro, a difusão extensiva das instituições modernas, graças aos processos da globalização, em especial a expansão dos meios de transporte e as tecnologias de informação. Em segundo lugar, mas para o autor, diretamente relacionado, estão os processos de mudança intencional e extensional, traduzidos na “radicalização da modernidade”.

 Essa radicalização seria um processo de “abandono, desincorporação e problematização da tradição”. Observo que esse último aspecto, pelo seu grau de ruptura – sem uma transição pacífica e saudável – corporifica-se em grupos e situações radicais que se transformam em ameaças à sociedade. Ao contrário da ruptura, da negação, Beck, Giddens e Lash (1997) explicam a importância de que passado e presente andem juntos para orientar o futuro:

 

A tradição é uma orientação para o passado, de tal forma que o passado tem uma pesada influência sobre o presente. Mas, evidentemente, em certo sentido e em qualquer medida, a tradição também diz respeito ao futuro, pois as práticas estabelecidas são utilizadas como uma maneira de se organizar o tempo futuro. O futuro é modelado sem que se tenha a necessidade de esculpi-lo como um território separado. A repetição, de uma maneira que precisa ser examinada, chega a fazer o futuro voltar ao passado, enquanto também aproxima o passado para reconstruir o futuro (BECK, GIDDENS e LASH, 1997, p. 80).

 

Um aspecto que realmente se modificou foi a ascendência do Estado ou da tradição sobre os sujeitos relativamente passivos. Os cidadãos e as sociedades esperavam soluções do Estado, que era tido como um Pai. “Já nos contextos pós-tradicionais não temos outra escolha senão decidir como ser e como agir“ (BECK, GIDDENS e LASH, 1997, p. 94). Nesse sentido, o autor desenvolve a idéia da “escolha ativa” e da “autonomia”.

 

 

1.1    Papel da tecnologia

 

 A partir da década de 80 a aceleração tecnológica une-se à extraordinária evolução científica, dando início a uma revolução que passa a instaurar uma nova sociedade, denominada por alguns autores como sociedade pós-industrial (Daniel Bell e Alain Touraine), sociedade da informação ou sociedade em rede (CASTELLS, 2003) ou ainda como vimos anteriormente, sociedade pós-tradicional (GIDDENS, 1996). A principal característica dessa estrutura social emergente concentra-se na produção de bens imateriais, como serviços e conhecimento. A mecanização é substituída pela automação, assim como a quantidade é substituída pela qualidade.

Beck, Giddens e Lash (1997) apontam as técnicas eletrônicas como uma das características mais notáveis da globalização do capitalismo, compreendendo a micro-eletrônica, a automação, a robótica e a informática, em suas redes e vias de alcance global, intensificam e generalizam as capacidades dos processos de trabalho e produção. Para o autor as transformações da ciência em técnica e da técnica em força produtiva multiplicam amplamente as condições e as possibilidades de reprodução ampliada do capital, intensificando o caráter “civilizatório” desse.

Na verdade a globalização é toda essa “aldeia global” onde o homem vive atualmente e que tão bem foi designada por Marshall McLuhan, na década de 60: “eletricamente contraído, o globo não é mais que uma vila”. Naquele momento McLuhan (1964) se referia ao poder dos meios de comunicação de massa, em especial a televisão e a possibilidade de transmissões instantâneas sem as dificuldades e custos do cinema. O autor disse mais, que depois de três mil anos de explosão, graças às tecnologias fragmentárias e mecânicas, o mundo está implodindo: “Durante as idades mecânicas projetamos nossos corpos no espaço. Hoje, depois de um século de tecnologia elétrica, projetamos nosso próprio sistema nervoso central num abraço global, abolindo tempo e espaço” (McLUHAN, 1964, p.17).

A revolução tecnológica atual, segundo Castells (2003), não é diferente daquela iniciada no pós-guerra. Para o autor não há coincidência sobre a época em que ela se desenvolveu e propagou, no período histórico de reestruturação global do capitalismo. Nesse momento, de efervescência e busca de novos caminhos ela serviu como ferramenta básica. Dessa forma, Castells (2003) justifica o seu conceito de que a sociedade atual é “capitalista e informacional[6], pois os dois processos andaram juntos a partir da década de 80, embora apresentem variações, conforme a realidade sócio-cultural e política de alguns países.

Castells (2003) analisa o avanço da globalização, tendo como instrumento o “novo modo de desenvolvimento”, através do paradigma tecnológico, fundado na informação. Esse novo paradigma não substitui o modo de produção capitalista, mas lhe dá um novo contorno e define o perfil das sociedades do final do século XX e início do século XXI. Observa-se que a análise do autor identifica uma nova estrutura social, pontuada pela presença e funcionamento de redes interligadas. Na visão de Castells (2003, p. 39), “uma revolução tecnológica, centrada nas tecnologias da informação começou a remodelar a base material da sociedade em ritmo acelerado”.

Relaciono esse processo com o avanço da interdependência global, com uma nova forma de relação entre a economia, o Estado e a sociedade. A derrocada do estadismo soviético diminui “riscos”, como a radicalização do marxismo-leninismo, o holocausto nuclear enquanto o próprio capitalismo teve de se reestruturar adquirindo maior flexibilidade de gerenciamento; descentralização de empresas e sua conseqüente organização em redes, tanto internas quanto externas, além do fortalecimento do capital em detrimento do trabalho, com o declínio concomitante da influência dos movimentos dos trabalhadores.

Atualmente, como conseqüência da revisão do capitalismo está em curso, cada vez mais, a integração dos mercados financeiros e um sistema interdependente, que funciona “como uma unidade em tempo real” (CASTELLS, 2003, p. 40). Acompanhamos a integração global dos mercados financeiros, desenvolvimento de novos mercados, hoje já dominantes, como a região do Pacífico asiático; a difícil unificação econômica da Europa, a transformação gradual da Rússia e da antiga área de influência soviética, nas economias de mercado.

No entanto, a maioria dos autores estudados – Castells, Giddens, Harvey e Baumann – aponta que todo esse processo, que gerou inúmeros benefícios, também foi responsável pelo enfraquecimento das lutas trabalhistas, novas formas de relações e instituições de trabalho – muitas vezes desfavoráveis aos trabalhadores – e aumento da concorrência econômica global. Beck, Giddens e Lash (1997) afirmam que as maravilhas da ciência e da técnica não se traduzem necessariamente na redução ou eliminação das desigualdades sociais entre grupos, classes, coletividades ou povos. “Ao contrário, em geral preservam, recriam ou aprofundam as desigualdades” (p. 157).

Na mesma direção, Castells (2003) observa que assim como se desenvolvem novos mercados, nos mais diversos territórios e sociedades, outros correm o risco de se tornar não pertinentes, sob a perspectiva da lógica do sistema. Para o autor, há um desenvolvimento desigual e fora da lógica geográfica ou histórica das nações. “Na verdade observamos a liberação paralela de forças produtivas consideráveis da revolução informacional e a consolidação de buracos negros de miséria humana na economia global” (p. 40). Castells (2003) constata, ainda, a utilização dessa tecnologia, impulsionadora do momento atual, que redesenhou o progresso e, até mesmo, as formas de relacionamento entre as pessoas (redes interativas), como sendo também a responsável por atividades criminosas que se tornaram globais e informacionais, permitindo que cresçam e se consolidem junto ao progresso. São as contradições da fase atual do capitalismo.

Essa mesma tecnologia, propulsora de progresso e, por outro lado, geradora de problemas e contradições, acarretou profundas transformações no tempo e no espaço, aspectos básicos da existência humana. Em idades mais remotas, tempo e espaço pareciam imutáveis e indiscutíveis. O tempo era medido por movimentos cíclicos e repetitivos, bem como em rotinas diárias e datas comemorativas. O espaço parecia, histórica e geograficamente, definido e era tratado com um fato da natureza, de certa forma, mais objetivo e complexo que o tempo, com características materiais palpáveis (área, forma, volume, direção entre outros).

Entretanto, nas últimas décadas, as transformações tecnológicas reestruturaram completamente essas duas dimensões fundamentais da vida humana, ou seja, o tempo e o espaço. Jameson (1984b, citado por HARVEY, 2005, p. 187), observa que ainda não possuímos o equipamento perceptual que nos permita compreender esse novo tipo de hiperespaço, por outro lado, temos a certeza que tanto os ponteiros do relógio quanto os mapas geográficos não são mais verdades absolutas.

O autor David Harvey se ocupa, exatamente, de buscar significados para a questão do tempo e do espaço na vida social, para entender processos político-econômicos e culturais através dos tempos. Harvey (2005) questiona a objetividade exacerbada desses parâmetros, uma vez que difere conforme a época, a cultura e o propósito a que se destina. Em sociedades primitivas, como a indígena, por exemplo, o espaço de uso comum da tribo tinha uma concepção diferente da nossa sociedade. Harvey (2005) constata que nem mesmo as teorias sociais consideravam o espaço como uma categoria decisiva, talvez porque partissem da idéia de "existência de alguma ordem espacial preexistente, na qual operam processos temporais ou que as barreiras espaciais foram reduzidas a tal ponto que tornaram o espaço um aspecto contingente, em vez de fundamental, da ação humana" (p. 190).

Porém, tamanha objetividade, tanto para um aspecto quanto para o outro, foi colocada abaixo com o advento do capitalismo, impulsionado pelas novas tecnologias. Hoje, tempo e espaço são questões subjetivas e adquiriram novos sentidos. Com a instantaneidade da internet, as transmissões via satélite e a própria telefonia móvel, podemos estar no mesmo momento em tempos e espaços diversos.

Em tempo "real", conversamos com alguém do outro lado do planeta e percorremos o espaço geográfico de cidades distantes, através de imagens no computador. Castells (2003) propõe a idéia do "tempo intemporal" que domina a nossa sociedade e, segundo ele:

 

ocorre quando as características de um dado contexto, ou seja, o paradigma informacional[7] e a sociedade em rede, causam confusão sistêmica na ordem seqüencial dos fenômenos sucedidos naquele contexto. Essa confusão pode tomar a forma de compressão da ocorrência dos fenômenos, visando à instantaneidade, ou então de introdução de descontinuidade aleatória na seqüência. A eliminação da seqüência cria tempo não-diferenciado, o que equivale à eternidade (p. 556).

O mundo da experiência do espaço e do tempo teve muito a ver com o nascimento do modernismo e com os focos de tensão entre o sentido do tempo e do espaço. É nas últimas duas décadas que temos vivido uma intensa fase de compreensão desses dois fatores, que têm tido um impacto desorientado sobre as práticas político-econômicas, sobre o equilíbrio do poder de classe, bem como sobre a vida social e cultural. A intensidade de compressão do tempo-espaço no capitalismo ocidental, a partir dos anos 60, nos indica um contexto que confere à condição da globalização algo um tanto especial, gerado pelas tensões de acumulação de capital, a redução do espaço por meio do tempo e também da redução do tempo de giro. Nesse sentido, segundo Harvey (2005, p. 188), o tempo "pode ser mobilizado para atender às exigências do tempo industrial que aloca e realoca trabalho para atender tarefas, segundo rigorosos ritmos de mudança tecnológica […], pela busca incessante de acumulação do capital".

Dentro desse contexto, o autor analisa o Fordismo[8], sistema que usa certa organização espacial para acelerar o tempo de giro do capital produtivo. Assim, o tempo pode ser acelerado, em virtude do tempo estabelecido por meio da organização e fragmentação da ordem espacial da produção. O capital, símbolo da globalização da economia, é um processo de reprodução de mercadorias, que se reproduz na vida social e que envolve todas as pessoas do mundo capitalista avançado.

Observo que a vida globalizada está marcada por uma sociedade sem fronteiras, com poderes inovadores. Hoje, mais do que nunca, com a expansão cada vez maior das tecnologias de comunicação e informação, espacialidade e tempo tradicionais não mais existem. A espacialidade tradicional do capitalismo é aquela das concentrações espaciais do capital e do trabalho e nem sempre coincidem com o que se conhecia até meados do século passado. Essa espacialidade, muitas vezes segregadora, destrutiva e discriminatória foi construída a partir da industrialização e da urbanização, os processos estruturais fundamentais da sociedade pós-industrial ou de consumo, consolidada após a segunda Guerra Mundial. 

Giddens (1996, p. 13), muito bem define a organização do tempo e do espaço na época atual, para o autor “a globalização trata efetivamente da transformação do tempo e do espaço. É essencialmente ação a distancia: a ausência predomina sobre a presença, não na sedimentação do tempo, mas graças à reestruturação do espaço”.

Nas comunicações, o surgimento e a disseminação da Internet possibilitaram a quebra de barreiras temporais, espaciais e de identidade. A liberdade assim conquistada abre espaço para um agir totalmente reformulado e em constante mutação. Para Baumann (1999),

 

[…] A separação dos movimentos da informação em relação dos movimentos de seus portadores e objetos permitiu por sua vez a diferenciação de suas velocidades; o movimento da informação ganhava velocidade num ritmo muito mais rápido que a viagem dos corpos ou a mudança da situação sobre a qual se informava. Afinal, o aparecimento da rede mundial de computadores pôs fim [...] a própria noção de viagem […], tornando a informação instantaneamente disponível em todo o planeta, tanto na teoria como na prática (1999, p. 22).

 

Penso que com tantas transformações e incertezas, deve-se perguntar, se as relações econômicas mudaram, e o aumento do preço do petróleo no Oriente Médio pode ter conseqüências desastrosas no Brasil; se a direita e a esquerda esgotaram os seus projetos políticos tradicionais (GIDDENS, 1996), e o papel do estado nacional se modificou, o que dizer das relações entre as pessoas? É possível imaginar que a sociedade globalizada está criando uma nova ética, com novas formas de pensamento e novas maneiras de ver o mundo.

Como observamos, no decorrer desta análise, são muitas as exigências dessa nova ordem global. A adaptação a esse novo mundo, assim como é um vasto campo de possibilidades, ao mesmo tempo gera contradições e problemas. Nem todas as culturas, nem todos os indivíduos estão preparados para mudanças tão rápidas no campo social, político, econômico, cultural e, porque não, psicológico.

 


 

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Notas de Rodapé

 

[1] Segundo Castells (2003, p. 250), a maior parte da literatura dos últimos 20 anos dá a impressão de que a empresa multinacional, com sua estrutura divisional centralizada, era a expressão organizacional da nova economia global. Porém, há autores que consideravam as novas empresas verdadeiras transnacionais, cujas visões, interesses e compromissos superam qualquer país em particular, independentemente de sua origem histórica. Para Castells (2003), esses dois pontos de vista estão ultrapassados e devem ser substituídos pelo surgimento das redes internacionais de empresas e de subunidades empresariais, como forma organizacional básica da economia infomacional/global. Para Ernest (citado por CASTELLS, 2003), a formação dessas redes não implica o fim da empresa multinacional, o autor crê que as redes são centradas em uma grande multinacional ou são formadas com base em alianças e cooperação entre essas empresas. Contudo as redes, formadas por empresas multinacionais transcendem fronteiras, identidades e interesses nacionais. A hipótese levantada por Giddens (1996, p. 250) “[…] é que, conforme o processo de globalização progride, as formas organizacionais evoluem de empresas multinacionais a redes internacionais, na verdade passando por cima das chamadas ‘transnacionais’ [...]”. As multinacionais não estão apenas participando de redes, mas estão, elas próprias, cada vez mais organizadas em redes descentralizadas. Ghoshal e Bartlett (citados por CASTELLS, 2003), definem a multinacional contemporânea como “uma rede interorganizacional”, ou “uma rede que está inserida em uma rede externa”. Para Giddens, “as multinacionais, são realmente as detentoras do poder oriundo da riqueza e tecnologia na economia global, visto que a maior parte das redes é estruturada em torno delas” (1996, p. 250-253).

 

² Por quase todo o século passado, os Estados nacionais tinham como um dos seus principais objetivos a promoção do bem estar social e econômico da nação e eram um instrumento de defesa dessa (FAGUNDES, 2003) Na visão de Baumann (1999), o Estado-nação se caracterizava pelo "tripé da soberania": auto-suficiência militar, econômica e cultural. E isto, segundo o autor, para preservar sua capacidade de policiar a lei e a ordem.  Para Harvey (2005, p. 68): “Na época moderna, o significado de ‘Estado’ foi o de um agente que reivindicava o direito legítimo de e se gabava dos recursos suficientes para estabelecer e impor regras e normas que ditavam o rumo dos negócios num certo território [...]. Um Estado dotado de soberania [...], dotado da ambição de impor um certo modelo de ordem preferido em vez de outros modelos alternativos. Em resumo, “uma organização hierárquica com área de competência delimitada” (CASTORIADIS, 1990, citado por HARVEY, 2005).

 

³Na época atual o capital voa no espaço e no tempo com uma rapidez jamais imaginada antes das tecnologias informacionais. Na economia globalizada o capital é volátil, como explica Ianni (1995): “a moeda nacional torna-se reflexa da moeda mundial, abstrata e ubíqua, universal e efetiva”. Castells (2003, p. 143) observa que “os mercados de capitais são globalmente interdependentes e são gerenciados 24 horas por dia, em mercados financeiros globalmente integrados, funcionando em tempo real pela primeira vez na história”. Segundo Castells (2003), transações de bilhões de dólares são feitas em questão de segundos, através de circuitos eletrônicos por todo o planeta. As novas tecnologias permitem que o capital seja transportado de um lado para outro entre economias em curtíssimo prazo, de forma que o capital e, portanto, poupança e investimentos estão interconectados em todo o mundo.

 

4 “Uma ordem social pós-tradicional não é aquela na qual a tradição desaparece – longe disso. É aquela na qual a tradição muda seu status. As tradições têm de explicar-se, têm de se tornar abertas à interrogação ou ao discurso” (GIDDENS, 1996, p. 13).

 

5 Harvey (2005) aponta Nietzsche como o primeiro autor a utilizar esse conceito na sua crítica à modernidade. Para Nietzsche a essência eterna e imutável da humanidade encontrava sua representação adequada na figura mítica de Dioniso: ser a um só tempo “destrutivamente criativo” (isto é, formar o mundo temporal da individualização e do vir-a-ser, um processo destruidor na unidade) e “criativamente destrutivo” (isto é, devorar o universo ilusório da individualização, um processo que envolve a reação da unidade). O economista Shumpeter, também citado por Harvey (2005), empregou essa mesma imagem para compreender os processos de desenvolvimento capitalista. O empreendedor, que Shumpeter considera uma figura heróica, era o destruidor criativo por excelência, porque estava preparado para levar a extremos vitais as conseqüências da inovação técnica e social – e era somente através desse heroísmo criativo que se podia garantir o progresso humano (p. 25 e 26).

 

6 Castells (2003) faz uma distinção analítica entre as noções de “sociedade da informação” e “sociedade informacional”. O termo sociedade da informação enfatiza o papel da informação na sociedade. O autor afirma, que em sentido mais amplo, como comunicação de conhecimentos foi crucial a todas as sociedades. Ao contrário, o termo informacional indica o atributo de uma forma específica de organização social em que a geração, o processamento e a transmissão da informação tornam-se as fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas, surgidas nesse período histórico […]. Uma das características principais da sociedade informacional é a lógica de sua estrutura básica em redes, o que explica o uso do conceito de sociedade em rede (p. 64-65).

 

7 Castells (2003, p. 223) destaca os aspectos centrais do paradigma da tecnologia da informação, que segundo ele, no conjunto, representam a base material da sociedade da informação. Entre esses está a informação como sua matéria-prima; a penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias; a lógica de redes em qualquer sistema ou conjunto de relações, usando essas novas tecnologias da informação; a flexibilidade, em que se baseia o paradigma da tecnologia da informação e, por fim, a crescente convergência de tecnologias específicas para um sistema altamente integrado, no qual trajetórias tecnológicas antigas ficam impossíveis de se distinguir em separado. Para aprofundamento, consultar Castells (2003, p. 108-109).

 

8 O fordismo pode ser entendido por uma série de características: “meticulosa separação entre projeto e execução, iniciativa e atendimento a comandos, liberdade e obediência, invenção e determinação, com o estreito entrelaçamento dos opostos dentro de cada uma das posições binárias e a suave transmissão de comando do primeiro elemento de cada par ao segundo” (BAUMANN, 2001, p. 68).

 

 


 

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