"GLOBALIZAÇÃO - sobre a desterritorialização"*

HOLGONSI SOARES

Prof.Ass. Depto de Sociologia e Política-UFSM

* Artigo publicado no jornal "A Razão em 27.06.97

"mas a ausência de exatidão não está somente na linguagem e nas imagens: está no próprio mundo. O vírus ataca a vida das pessoas e a história das nações, torna todas as histórias informes, fortuitas, confusas, sem princípio nem fim". (Ítalo Calvino)

Ela é mais evidente sob o aspecto econômico (e partindo-se do mundo do trabalho). Começa com as exigências de um trabalhador multifuncional. Seu espaço no interior da empresa muda constantemente. Já a redução do emprego regular, faz este trabalhador passar por várias outras empresas/serviços/cargos; e, o desemprego o leva para outras cidades, estados, países. Movimento constante. Para os multiqualificados, um tempo maior (quem sabe poderão até fixar domicílio); para os desqualificados, migrações aleatórias, e um "alojamento"provisório. O "telecommuter" (trabalhador que não comparece à sede da empresa), trabalha em casa, em escritórios satélites ou em centros de trabalho, apenas acessando ao "servidor"da empresa.

Os produtos. Muitas vezes não sabemos onde começou ou terminou a fabricação. Se com um trabalho dignamente remunerado, ou escravo. Matéria-prima, produção, distribuição em mãos diferentes. Do vestuário ao automóvel, um lugar corresponde um pedaço. O mundo globalizado, é o reino das Corporações Transnacionais. O monopólio supera os limites geográficos e está disperso em "n" locais; elas produzem de tudo. Preocupação: gerar necessidades de consumo.

Clarificando então o conceito: "desterritorialização" - não se tem mais um ponto de referência exato. Empresas.Trabalhadores.Produtos. Tudo mundial, e em trânsito. Apenas uma certeza:a incerteza. Tudo porém, é uma questão de espaço (físico, geográfico, sócio-político, econômico e psicológico). Dentro da própria casa, a mídia audiovisual com seus fragmentos ininterruptos de imagens e "dobrando o espaço sobre si próprio"(P.Virilio), coloca o homem em contato com localidades hiper-distantes e desafia a compreensão do mesmo em relação ao presente.O corpo humano pós-moderno encontra-se agora exposto, no dizer de F.JAMESON, a "uma barreira de imediaticidade da qual todas as camadas protetoras e mediações intervenientes foram removidas" .

Conseqüência? Desarticulação do sujeito, por não conhecer mais o seu lugar no mundo. O espaço público é desmontado. Onde antes havia concentração de indivíduos, o que favorecia a ação política, hoje há dispersão. A desterritorialização é uma característica da sociedade global que se organiza neste final de século. Dependendo da região, com maior ou menor intensidade. Não se trata de evitá-la, pois é uma realidade, mas sim de como vivenciá-la. Isto é positivo, pois trata-se de um desafio que exige um rompimento com o marasmo e com referenciais ultrapassados que há muito se instalaram nas Ciências Humanas.

Seria a terceira conferência de Calvino na Universidade de Harvard, e talvez a mais complexa: sobre a exatidão. Ao criticar a falta da mesma no uso da palavra, acrescentou a questão das imagens. Mas não parou aí. A falta de exatidão, escreveu, está no próprio mundo.Tinha razão. É a inexatidão nos circuitos do dinheiro, da informação, da comunicação e da vida, que estimulam a desterritorialização, e consequentemente, a globalização.

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