GLOBALIZAÇÃO: sobre os "RISCOS DE GRANDE CONSEQÜÊNCIA"*

Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira

*Publicado no Jornal "A Razão" em 07.12.2000

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"A maioria dos ganhos produzidos por vários séculos de "desenvolvimento" econômico foi invalidada pela separação entre os seres humanos e a natureza e pela degradação ecológica resultante"(A.Giddens).

Os "riscos de grande conseqüência" surgiram do impacto do desenvolvimento técnico-industrial sem limites sobre o homem concreto (como produtor e consumidor), sobre a natureza e sobre a sociedade e sua organização. Giddens identifica quatro fontes de crise nas quais enfrentamos estes riscos: o impacto do desenvolvimento social moderno sobre os ecossistemas mundiais; o desenvolvimento da pobreza em larga escala (holocausto da pobreza); as armas de destruição maciça com suas possibilidades de violência coletiva e a repressão dos direitos democráticos. Vou referir-me neste espaço, apenas à primeira fonte.

O "poder-fazer técnico unilateral" (Castoriadis) exercido sobre as coisas, não ajudou os homens a resolverem seus problemas de organização coletiva, mas conseguiu degradar a natureza. Se na tradição havia um espaçotempo certo para plantar, para colher, para construir e para viver, na pós-modernidade a tecnociência demonstra sua performance modelando e re-modelando (ou seria construindo e destruindo?) o espaçotempo para qualquer atividade e a qualquer momento, deste que esta atividade seja lucrativa.

Como resultado deste processo, nosso espaçotempo é marcado pela emergência ou intensificação dos problemas socioambientais globais: risco de acidentes nucleares ou biotecnológicos, desertificação, desmatamento, perda da biodiversidade,etc. A esses, somam-se outros mais recentes como o aquecimento global e a destruição da camada de ozônio. Por não apresentarem precedente histórico, os desastres advindos destes "riscos de grande conseqüência" são imprevisíveis e de difícil delimitação, mas podem ser exagerados, incontroláveis e afetar a todos.

Neste contexto, a mídia satura-nos com notícias relacionadas à situações de risco, que representam signos de uma época que nada compreende, e dizem respeito a um novo tipo de sociedade , a "sociedade de risco" (U.Beck); uma sociedade que não está segura, pois desconhece as reais conseqüências destes males globais, e na qual vivemos em um estado permanente de incerteza, pois o passado é cotidianamente apagado, e o futuro é totalmente indefinido. Esta incerteza chama atenção para o fato de que, o controle da ciência e da tecnologia deve ser tão importante para as questões ecológicas, como o controle do meio ambiente.

Os riscos de grande conseqüência são utopias negativas, pois nos mostram aquilo que deveríamos evitar. O desenvolvimento insustentável e sua cultura técnica/performática e do desperdício, deve ser substituído por um desenvolvimento sustentável de enfoque comunitário, que priorize o princípio da eqüidade social por sobre a eficiência alocativa, rompendo-se com a visão tecnocrática que subordina a participação da sociedade civil aos mecanismos do mercado.

A falta de consenso sobre este novo estilo de desenvolvimento, resulta no embate entre forças conservadoras, que insistem em tratar a natureza de forma instrumental, mantendo seu padrão de consumo e prosperidade (e do qual participa apenas 20% da população mundial), e forças progressistas que lutam por uma civilização socialmente justa, por políticas econômicas que levem em conta as questões ambientais, e por uma visão da natureza em harmonia com os seres humanos. Deste conflito, resultam novas e profundas divisões entre as nações, as classes sociais e os partidos.

Questões como o uso mais eficiente dos recursos (no caso das emissões de carbono), e a restrição do consumo em nível global, colocam urgentemente em debate o próprio conceito de necessidades humanas; constituem a luta de novos movimentos sociais, mas devem ocupar o espaço da cidadania como um todo, e fazer parte, de forma séria, de uma educação pós-moderna crítica. Porém as problemáticas relacionadas aos riscos de grande conseqüência só podem ser tratadas sob uma abordagem interdisciplinar, pois qualquer ação efetiva passa, simultaneamente, por questões sócioeconômicas, culturais, político-institucionais e ambientais.

O homem pós-moderno, certo de seu saber, usa e abusa de tudo o que está a seu alcance; desenvolveu um sistema produtivista que não leva em consideração as preocupações éticas; pela sua intervenção, alterou completamente a natureza, e hoje "em vez de se preocupar, acima de tudo, com o que a natureza poderia fazer-lhe, tem agora que se preocupar com o que fez à natureza" (Giddens).

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