"SIMULACRO DE POLÍTICA" *

HOLGONSI SOARES GONÇALVES SIQUEIRA

* Artigo publicado no Jornal "A Razão" em 30.09.2004


"Está se tornando cada vez menos possível extrair decisões da superestrutura corporativista e político-partidária" (Ulrich Beck).

Com o fim das metanarrativas, e em meio às fragmentações do mundo pós-moderno, a política não pode ser mais entendida nem classificada tendo por base o antigo espectro direita-esquerda. As problemáticas e as questões atuais mais importantes, resultantes do processo de globalização, da formação de uma sociedade do conhecimento e suas novas exigências, e do papel central das novas tecnologias de comunicação e informação (colocando como central a questão da relação entre poder social e a posse do conhecimento), não se prestam mais a este rígido enquadramento.

A predominância de um hiperpluralismo, substituiu a idéia de predeterminação política, e hoje as verdadeiras forças motoras da ação política estão nas necessidades insatisfeitas dos indivíduos pós-modernos sendo estas de todas as ordens: políticas, sociais e/ou culturais, e com base nelas os movimentos e grupos se auto-organizam.

Ao contrário do que muitos afirmam, os indivíduos não deixaram de se interessar pela política. O que acontece é que suas formas de organização, seus objetivos e lutas, estão em desacordo com os padrões e as ladainhas tradicionais, o que é um excelente recado no sentido da renovação das formas de se entender, se tratar e se fazer a política. Estão se desinteressando sim, e se constituindo como massa muda, para este simulacro de política que se explicita nas épocas de eleição.

No simulacro de política, o que os políticos praticam é política eleitoral de curto prazo, estratégica, e dessa forma a política não passa de "intrigas, conspirações, tráfico de influência, lutas surdas ou abertas para se apropriar do poder" (C.Castoriadis), perdendo seu sentido forte de questionamento do instituído, de prática reflexiva que impulsiona a autonomia individual e coletiva. Por isto o simulacro de política é política sem qualidade, que deixa o que é importante sem resposta.

As ações políticas tradicionais ainda não absorveram as profundas mudanças que se processaram na estruturação de nossa nova sociedade, a qual correspondem novos princípios socioculturais e políticos. Na luta pelo poder ouvimos os discursos esvaziados de sentido, mas que no processo da simulação, continuam cada vez mais encenando uma produção de sentido. Discursos que, baseando-se em uma provável ignorância dos indivíduos, prometem resoluções rápidas para problemas complexos.

Por exemplo, a problemática do trabalho, emprego e desemprego envolve muitas outras questões que necessitam de políticas específicas, mas continua sendo tratada de forma simples. Políticas sociais efetivas, que deveriam ser formuladas pelo Estado, são abandonadas em favor de um assistencialismo barato nos momentos eleitorais, que serve apenas para manter vivo o clientelismo. Discursos e atos muitas vezes fundamentalistas, que não admitem questionamentos, buscando se evitar que o simulacro seja desconstruído.

De acordo com o pensamento de J-F.Baudrillard, eu diria que a política partidária tende para a "forma" publicitária, e na sua maior parte esgota-se aí. Uma publicidade simplificada, vagamente sedutora e vagamente consensual. "A propaganda faz-se marketing e merchandizing de idéias-força, de homens políticos e de partidos com a sua "imagem de marca"". Afirmo que não conseguem fazer mais nada, a não ser acentuar a apatia dos indivíduos pela política partidária e seus representantes.

Esta apatia continuará enquanto os políticos insistirem em não valorizar a autonomia e a participação dos indivíduos. Por ser uma organização eleitoral, os partidos limitam as influências e o controle sobre as mesmas por parte dos eleitores. Ao afastarem os indivíduos das questões públicas, o exercício da cidadania passa a compreender exclusivamente o voto, desencorajando-se outras formas de participação política. Sob este aspecto concordo com Held que "uma democracia seria plenamente digna de seu nome se os cidadãos tivessem o poder efetivo de ser ativos como cidadãos", e portanto qualquer prática que enfraqueça ou desmobilize as capacidades de indivíduos e grupos é nociva à democracia, à autonomia e consequentemente à cidadania.

A indiferença às instituições políticas, a instabilidade nas preferências dos eleitores e o descontentamento com as lideranças políticas aumentarão, enquanto os partidos não incluírem em suas agendas a "política da vida", a qual de acordo com A.Giddens, é uma política não de oportunidades de vida, mas de estilo de vida, e que se refere a disputas e lutas sobre como devemos viver (como indivíduos e também como humanidade coletiva) em um mundo agora sujeito a decisões humanas. Um mundo no qual, sob a ótica das contradições produtivas, nos dá mais oportunidades de decidir sobre o que somos, o que queremos ser e o que queremos ter. Voltando-se para a "política da vida", os partidos deveriam ser uma força a mais para abertura, e não fechamento destas oportunidades.

Assim como tenho me referido muito à relação da educação formal com outros espaços educativos, penso que este também é um caminho bastante promissor também no âmbito da política partidária. A relação dos partidos com outros espaços políticos "não-formais" efetivaria de um lado, a renovação da política esclerosada, e de outro lado o amadurecimento e enriquecimento dos novos espaços. Os novos grupos sociais, políticos e culturais que se auto-organizam na sociedade pós-moderna, são "esferas democráticas" por excelência.

Porém, relacionar-se com estes novos espaços de poder, não significa apossar-se deles (como muito já se tem feito) para usá-los nas disputas do poder, significa (baseando-me nas análises que A.Heller faz sobre esta relação), trabalhar dialogicamente com os movimentos e grupos pós-modernos, preservando-se as independências, o direito à crítica mútua e a resolução de conflitos sem dominação. Mais uma lição que as lideranças políticas precisam aprender.

Enquanto isto não acontece, o conselho de J-F.Baudrillard para destruição deste simulacro de política deveria ser radicalmente praticado: "fazer com que esta política falida, assuma a sua morte". Esta idéia de J-F.Baudrillard passa pela privação de legitimidade às propostas inexeqüíveis, aos referenciais fracos ou inexistentes e às repetições incessantes. Os políticos tradicionais temem que isto aconteça: falta de legitimação ao simulacro de política.


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