"CIÊNCIA PÓS-MODERNA" *

Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira

* Publicado no Jornal "A Razão" em 22.04.2004

Ainda que no atual cenário científico não exista um consenso entre os cientistas se estamos em transição ou já exista uma ciência pós-moderna firmada (ou até mesmo a falta de consenso sobre o próprio conceito de ciência), a pós-modernidade está gerando profundas transformações nos modos de se produzir o conhecimento (globalização, redes de trabalho, relações universidade-sociedade, inovação tecnológica , etc.), as quais têm afetado a ciência não só em seu compromisso com o progresso da sociedade mas no âmbito de sua essência, tornando-a mais aberta (sua compreensão hoje depende de um contexto de relações flexíveis e mais complexas), dinâmica, questionadora e deixando-se questionar.

Como outras instituições (por exemplo: a academia, instituições de controle militar e político...), a ciência sempre exerceu pressão sobre o que pode ou não ser dito, interrompendo, segundo J-F.Lyotard, conexões possíveis sobre as redes de comunicação: "... há coisas que não devem ser ditas ... há coisas que devem ser ditas e maneiras de dizê-las ...". Dessa forma, seus limites foram bem demarcados, não havendo lugar para a multiplicidade de linguagens e dificuldades para a aceitação de novas proposições; para os fundadores da ciência e da filosofia modernas, as afirmações da razão deveriam oferecer certezas.

A falta de flexibilidade, na ciência clássica, conduzia a uma "instituição heteronômica da sociedade" (C.Castoriadis); não era "qualquer um" que podia questionar suas verdades, e mesmo os iniciados só o podiam fazer se sua nova verdade suscitasse o consenso, o que colocava a ciência voltada para as "narrativas legitimadoras" (J-F.Lyotard). A ciência era determinista e trabalhava com enunciados rígidos, representando o paradigma da certeza, da simplicidade. Esse modelo desenvolveu-se no âmbito das ciências naturais com base em regras metodológicas e princípios epistemológicos perfeitamente definidos.

Dentro desse paradigma, generalizou-se a multiplicidade de conhecimento, a proliferação de teorias, de correntes de pensamento, bem como de descobertas científicas e técnicas. Porém, os saberes acumulados não desenvolveram uma inter-relação entre si, e cada área se constituiu num fragmento isolado do conjunto do qual fazia parte. Mas a condição pós-moderna fez emergir as contradições do paradigma da certeza e com elas o reconhecimento de que a sociedade atual é fortemente marcada por ambigüidades.

Na ciência pós-moderna, a flexibilidade possibilita-nos trabalhar com enunciados flexíveis e com a instabilidade no lugar do determinismo moderno. Dessa maneira, abre-se para novos lances, para novos "jogos de linguagem" (seguindo J-F. Lyotard: da linguagem-máquina, da teoria dos jogos, da linguagem do código genético, dos gráficos de estruturas fonológicas, etc.) com a relativização do discurso científico tradicional e, conseqüentemente, para o questionamento das "verdades sagradas", dos dogmas, da exposição da fragilidade de uma grande parte dos resultados da ciência moderna, enfim, da admissão de falibilidade.

A flexibilidade nesse campo permite que o conhecimento de um dado fenômeno abranja uma multiplicidade de enunciados, inclusive incompatíveis entre si, pois a ciência pós-moderna baseia-se no dissenso, o que a torna incrédula em relação às grandes narrativas legitimadoras do conhecimento e proporciona a geração de novas idéias impulsionando o processo criativo. A ausência de incerteza, de imprevisibilidade, implica também a supressão da novidade e da criatividade.

Na ciência pós-moderna, também encontramos cientistas que estão questionando suas práticas, suas relações consigo, com seus instrumentos, com a comunidade científica e com a sociedade; questionam a aplicação em massa da ciência ao mundo e também o status da ciência como método privilegiado de compreensão. Esses questionamentos fazem parte do "movimento de desdogmatização da ciência" (B.Santos), representado pela concepção de ciência pós-moderna e, conforme B.Santos, tornam a reflexividade algo comum, não só nas ciências sociais mas também nas ciências naturais.

Salvaguardadas as críticas, aqueles questionamentos têm como maior vantagem e contribuição "...tornar claro que os cientistas em geral e os cientistas sociais em particular são seres humanos; que são tão seres humanos os cientistas reflexivos quanto aqueles sobre os quais eles refletem..." (B.Santos).

Em seus aspectos produtivos, além de reflexiva, a ciência pós-moderna é interdisciplinar, não porque seja contrária à especialização (como erroneamente muitos entendem), mas sim porque respeita outros questionamentos e outras culturas, dialogando com todas as formas de conhecimento.

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