"Multiculturalismo: tolerância ou respeito pelo Outro?"*

Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira

* Publicado no Jornal "A Razão" em 26.06.2003

"A articulação social da diferença, da perspectiva da minoria, é uma negociação complexa, em andamento, que procura conferir autoridade aos hibridismos culturais que emergem em momentos de transformação histórica" (Homi Bhabha).

O atual processo de globalização, impulsionado pelas novas tecnologias de comunicação e informação, está interligando o mundo, estruturando a construção de uma sociedade multiétnica, e consequentemente confrontando diferentes ideologias, culturas e conceitos. Relembro a idéia de "compressão do tempo-espaço" , analisada por D.Harvey ao explicar as mutações que levaram o mundo a uma condição de pós-modernidade (formando-se uma sociedade pós-moderna caracterizada por infinitas trocas instantâneas), para dizer que a nova comunicação global ao alterar a nossa percepção de tempoespaço (trazendo o distante para perto, e ao mesmo tempo nos levando para o distante), também alterou a nossa relação com o "Outro", ampliando extraordinariamente nossas possibilidades de contato com modos diferentes de vidas.

Ora, sendo o processo de globalização uma dialética entre o local e o global, concordo então com Giddens que "este é um mundo em que o "Outro" não pode mais ser tratado como inerte", colocando-se como uma exigência de um contexto de globalizações a compreensão da alteridade. O não reconhecimento do "Outro" como ser humano pleno, com os mesmos direitos que os nossos, tem dado muito espaço na pós-modernidade para a xenofobia e o racismo, as guerras étnicas, a segregação e a discriminação baseadas na raça, na idade, na etnia, nas questões sexuais, de gênero ou na classe social, resultando isto em altos graus de violência.

Em um contexto de "relações sociais intensificadas", o multiculturalismo é a nova cultura do espaço global, uma cultura dinâmica que se refaz com e através dos fluxos globalizantes, modificando e reconstruindo as interações e colocando como desafio a conciliação de uma diversidade de costumes, concepções e valores, sem o perigo de se excluir as formas diferentes de se manifestar.

De um lado, destaco um multiculturalismo de cunho conservador, que busca a conciliação das diferenças com base no mito da harmonia. Esta construção ideológica nega que as relações entre as comunidades pós-modernas são marcadas por antagonismos e conflitos, reiterando os estereótipos e estigmas que recaem sobre as chamadas "minorias" (que as vezes tornam-se maiorias), e coloca-nos frente a uma concepção estática de cultura. H.Bhabha adverte que a harmonia só é alcançada em condições tácitas de normas sociais construídas e administradas pelo grupo dominante, obscurecendo-se portanto o exercício do poder. Sob esta ótica o multiculturalismo encoraja o crescimento da tolerância, mas, tolerar, não significa acolher, não significa envolvimento ativo com o Outro. Tolerância, é reconhecimento simplificado do Outro, é reforço do sentimento de superioridade; significa suportar a existência do Outro e de seu pensamento/ação diferentes.

De outro lado, destaco o multiculturalismo crítico (também chamado de revolucionário, ou emancipatório, ou contra-hegemônico), o qual tendo por base a política cultural da diferença, questiona o monoculturalismo, evidencia as contradições socioculturais fazendo vir à tona as diferenças e as ausências de muitas vozes que foram caladas pelas metanarrativas da modernidade. Ao rejeitar todo o preconceito ou hierarquia, este multiculturalismo baseia-se no respeito ao ponto de vista, às interpretações e atitudes do Outro, constituindo-se numa fonte de possibilidades de transformação e de criação cultural. Sendo assim, evidencia-nos um entendimento dinâmico de cultura, a qual deixa de ser um conjunto de características rígidas transmitidas de geração em geração, e passa a ser uma elaboração coletiva que se reconstrói a partir de denominadores inter-culturais.

Sob a ótica do multiculturalismo crítico, o reconhecimento do Outro tem um significado mais complexo e profundo. Seguindo o pensamento de A.Heller, isto quer dizer que as formas alternativas de vida do Outro, são de nosso interesse, ainda que não vivamos essas formas. O respeito pelo Outro, não admite força, violência ou dominação; admite sim o diálogo, o reconhecimento e a negociação das diferenças. Estou também me referindo aqui, a "democracia dialógica" (Giddens), a qual significa o "reconhecimento da autenticidade do Outro, cujas opiniões e idéias estamos preparados para ouvir e debater, como um processo mútuo".

Embora os microgrupos hoje tenham maior expressão, liberdade e possibilidades de se manifestar, o paradigma da hegemonia na pós-modernidade continua sendo o homem branco, rico e heterossexual, os que estão fora deste paradigma ainda são considerados "minorias", enfrentando discriminações, ou no máximo sendo tolerados. Aprender a conviver significa respeito e abertura para relações com jogos de linguagem que representam uma heterogeneidade muito grande de elementos sociais, políticos e culturais. O "aprender a conviver" diz respeito portanto a habilidade pessoal de permitir a aproximação e não o afastamento do Outro, através do interesse, da escuta, do diálogo, da empatia por formas alternativas de vida, etc., tendo sempre por base que o envolvimento com a diferença tornou-se um pré-requisito da vida democrática na globalização pós-moderna.

Isto por sua vez é parte integrante das competências sóciopolíticas para uma escola pós-moderna crítica desenvolver, considerando que o indivíduo pós-moderno cada vez mais será colocado à frente de um Outro considerado "diferente", e o respeito por este Outro se manifestará numa vontade autêntica de envolvimento.

A condição pós-moderna realçou os questionamentos sobre as diferenças, colocou o Outro como alguém que, mesmo vivendo de forma diferente, pode/deve ser reconhecido como "nós", e acentuou a flexibilidade como uma categoria política central para pensarmos sobre as mudanças que devemos proceder. Se a conversa franca/autêntica com o Outro ainda não se tornou realidade, então se torna mais urgente ainda a necessidade dos espaços educativos pós-modernos refletirem-na como possibilidade, afinal, a efetivação desta conversa envolve uma negociação muito complexa.

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