OTIMISMO NA PÓS-MODERNIDADE? *

Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira

* Texto concedido por mim à Jussara Malafaia Moraes (Jornalismo - Universidade Veiga de Almeida - RJ), para elaboração da matéria "Otimismo na pós-modernidade" - publicada na Revista Veiga Mais – Edição: Otimismo - Ano 3 - Número 5 – 2004.1. O texto teve por base a questão que me foi formulada da seguinte maneira:

"A pós-modernidade, a época em que vivemos, é traçada pela maioria dos autores nacionais e internacionais, como a época das incertezas, das fragmentações, das desconstruções, da troca de valores, do vazio, do niilismo, da deserção, do imediatismo, do hedonismo, do narcismo, da substituição da ética pela estética, do narcisismo, do consumo de sensações, etc.."

Perguntas:

1. É possível ter "otimismo" na pós-modernidade?

2. Por quê?


Para responder à questão proposta, quero inicialmente esclarecer dois aspectos que para mim são fundamentais em qualquer debate sobre a pós-modernidade: 1º ) aceito o termo pós-modernidade como digno de crédito; 2º ) tomo a pós-modernidade não apenas como uma teoria, mas sobretudo como condição, ou seja, é o contexto histórico no qual estamos vivendo, e portanto diz respeito à sociedadecultura atual, à economia, à política, ao atual estágio de desenvolvimento tecnológico, etc., e não apenas à esfera das artes e letras como querem alguns.

Sendo portanto a condição histórica na qual vivemos, sentimos, pensamos, agimos, amamos, navegamos, etc., ou então na qual deixamos de viver, de sentir, de..., ela constitui-se do que chamo de contradições produtivas e não-produtivas.

Pelo viés das contradições produtivas, chegamos às novas oportunidades, às positividades geradas pelo momento atual. Neste caso sou otimista. Dentre os inúmeros exemplos, e logo correndo o risco de simplicar, destaco o espaço conquistado pelas chamadas "minorias", e com esta conquista, novas formas de se entender e de se fazer política, as quais ampliam o espaço democrático e estimulam uma nova cidadania. Poderia também levantar a questão da flexibilidade (que considero uma das categorias centrais da pós-modernidade), a qual na arena das relações sociais e humanas gera o diálogo, as proposições abertas, a conversa sempre em andamento, ao contrário do prevalecimento das verdades formulares da modernidade, que nos colocavam sob molduras rígidas de pensamento e ação.

Já pela ótica das contradições não-produtivas, analiso os limites, as negatividades, os problemas de todas as ordens (com destaque para a questão social). Aqui, enfatizo o pessimismo. Uma sociedadecultura marcada pelo consumismo, pela negação da solidariedade, e pelos outros elementos que foram elencados para mim na formulação da pergunta.

Na pós-modernidade o otimismo deve ser entendido/visto ao lado do pessimismo, e vice-versa. Classifico como ingênuos os posicionamentos/visões unilaterais de nossa condição histórica (ou de qualquer outra passada). Seja por motivos políticos-ideológicos ou por falta de um maior entendimento da questão, posições/visões apenas pessimistas, ou apenas otimistas, servem somente para confundir e empobrecer o debate. Mas também digo, a partir do pensamento de Frederic Jameson, que o pessimismo sobre nossa realidade faz parte do demasiadamente óbvio.

Afirmo portanto que, sob a ótica das contradições produtivas, há espaço e podemos ser otimistas na pós-modernidade, até mesmo porque não compactuo com aqueles que privilegiam e apregoam a fragilidade do indivíduo frente às estruturas (ou ao "sistema").

Prof. Dr. Holgonsi Soares Gonçalves Siqueira

Departamento de Sociologia e Política

Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)- Rio Grande do Sul.

Em 13 de Outubro de 2003.

 

leia matéria completa escrita por Jussara Malafaia Moraes: "Pós-modernidade - uma luz que para uns brilha e para outros ofusca no fim do túnel"

 


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